Selénio e tiroide: uma relação indissociável

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O selénio é um mineral que faz parte da estrutura de certas proteínas e que tem uma relação muito próxima com o bom funcionamento da tiroide.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Inês Veiga, farmacêutica

 

A tiroide produz hormonas fundamentais para o metabolismo: a triiodotironina (T3) e a tetraiodotironina ou tiroxina (T4). Estas hormonas promovem as reações metabólicas em praticamente todos os tecidos: aumentam a síntese de enzimas oxidativas, com consequente aumento do consumo celular de oxigénio; favorecem a absorção intestinal de glucose e a sua utilização como combustível nas células; e aumentam a frequência cardíaca e a atividade neuromuscular.

A tiroide é também o órgão que aloja a maior concentração de selénio, um micronutriente essencial. O selénio é um mineral que faz parte da estrutura de certas proteínas, designadas selenoproteínas, com funções essenciais na tiroide: conversão da hormona T4 em T3, que é a forma mais ativa; e remoção de radicais livres de oxigénio originados na síntese destas hormonas. Caso haja deficiência em selénio, a expressão nas selenoproteínas antioxidantes fica comprometida, originando lesão oxidativa nas células da tiroide.

FALTA DE SELÉNIO E LESÃO OXIDATIVA NA TIROIDE

De acordo com o Grupo de Estudos da Tiroide da Sociedade Portuguesa de Endrocrinologia, Diabetes e Metabolismo, as doenças autoimunes da tiroide afetam 1 milhão de portugueses. As formas mais comuns são a tiroidite de Hashimoto (hipotiroidismo) e a doença de Graves (hipertiroidismo). Estas patologias parecem ter uma componente ambiental e genética, como aliás acontece noutros fenómenos de autoimunidade, em que o sistema imunitário reage contra estruturas do próprio organismo. Vários estudos revelam que os radicais livres de oxigénio, produto natural do metabolismo energético das células, também têm um papel determinante no desenvolvimento das reações de autoimunidade.

Durante a produção de hormonas que ocorre na tiroide, são produzidos radicais livres, como o peróxido de hidrogénio. É aqui que as selenoproteínas antioxidantes desempenham uma função crucial na proteção dos tireócitos (células da tiroide) contra os danos oxidativos causados por estes metabolitos tóxicos.

Um grupo de endocrinologistas do Centro Hospitalar de São João, no Porto, concluiu que a deficiência em selénio, mesmo que ligeira, pode constituir um dos fatores ambientais que inicia ou mantém a atividade autoimune da tiroide, particularmente em pessoas geneticamente suscetíveis. Outro grupo de endocrinologistas do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra verificou, numa revisão publicada em 2017, que a suplementação com selénio reduz os níveis de autoanticorpos dirigidos a proteínas da tiroide. Ao fim de 3 meses, foi possível identificar uma redução significativa; contudo, ao fim de 6 meses, os marcadores avaliados sofreram uma redução ainda mais acentuada. O selénio não substitui os medicamentos prescritos pelo endocrinologista, mas pode ser associado à terapêutica farmacológica por ele prescrita.

O selénio pode ser associado ao zinco, outro mineral que está presente nos recetores da hormona T3 em todas as células onde esta hormona exerce o seu efeito, proporcionando um maior equilíbrio a nível dos mecanismos de controlo da função tiroideia.

DEFICIÊNCIA EM SELÉNIO

É possível encontrar selénio na carne, frutos secos e cereais, porém, são cada vez mais os estudos que comprovam que os solos de toda a Europa contêm baixos teores de selénio, condicionando o conteúdo de selénio nestes alimentos. Na Finlândia, desde os anos 80 que foram implementadas estratégias para aumentar o aporte alimentar de selénio. Essas estratégias incluem a utilização de fertilizantes agrícolas enriquecidos com selénio, bem como a adição de selénio às rações dos animais.

Um estudo recente conduzido em Portugal por um grupo de investigadores do Instituto Superior Técnico de Lisboa concluiu que o solo agrícola português, bem como o trigo produzido neste território, contêm teores de selénio equivalentes aos que foram identificados no Norte da Europa, nos anos 70 e 80. Estes investigadores concluem que deveriam ser implementadas estratégias de enriquecimento dos solos com selénio.

Outra estratégia para aumentar o consumo de selénio, e garantir um funcionamento adequado da glândula da tiroide, é recorrer a um suplemento alimentar. Porém, é essencial selecionar um suplemento de qualidade e com uma dose adequada. Atualmente, a forma com mais documentação científica, no que diz respeito à absorção, eficácia e segurança, é a levedura enriquecida com selénio (uma matéria-prima natural e orgânica). No caso da tiroide, a dose recomendada será a partir de 100 microgramas por dia. Contudo, é conveniente ter em consideração que, em doses elevadas, os riscos do selénio podem sobrepor-se aos benefícios. Um profissional de saúde poderá recomendar o suplemento e a dose mais adequada, consoante a necessidade de cada pessoa.

Os benefícios do selénio não se cingem à tiroide: o aumento da sua ingestão favorece também a resposta do sistema imunitário, a fertilidade e reforça a defesa antioxidante, extremamente importante nos fumadores, desportistas ou pessoas sujeitas a elevados níveis de stress.

Artigo publicado na edição de setembro 2018 (nº 286)

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