Nos dias de hoje, o desejo de maternidade não precisa estar condicionado à existência de uma relação amorosa. Além de casais, há mulheres que sonham ser mães, movidas por um projeto de vida que não espera pela coincidência de um encontro romântico. A Dra. Alexandra Grade Silva, psicóloga clínica da Ferticentro, confirma que estas mulheres “têm, muitas vezes, entre 38 e 45 anos, recorrendo à procriação medicamente assistida (PMA) mais tarde do que mulheres que estão em casal. Com frequência, apresentam formação superior, uma carreira profissional estável e independência financeira, o que lhes confere maior autonomia na tomada de decisão.”

De acordo com a especialista, no geral, “já viveram relações longas e, nalgum momento da sua vida, idealizaram constituir uma família tradicional com dois progenitores, mas não encontraram um parceiro compatível com este projeto”. No entanto, o “desejo profundo e duradouro de maternidade” acaba por ser superior à expectativa de encontrar o parceiro ideal, “sobretudo perante a perceção do avanço da idade e da diminuição do tempo fértil”, conclui.
Processo é mais acessível do que se pensa
Para quem decide avançar para a maternidade independente, o processo é mais acessível do que se pensa. Entre a primeira consulta e o início do tratamento passam geralmente quatro a oito semanas, tempo para fazer exames, definir o tratamento e preparar tudo com segurança, esclarece a Dra. Carolina Coimbra, médica ginecologista e obstetra da Ferticentro.

Para estas mulheres, “as opções incluem a inseminação intrauterina com recurso a dador de esperma, fertilização in vitro (FIV) com esperma doado, dupla doação (óvulos e esperma, para criação de embriões), bem como transferência de embriões doados (criados previamente para outro casal, que decide altruisticamente doá-los).”
São tratamentos que, refere a médica, têm taxas de sucesso que “tendem a ser semelhantes ou ligeiramente superiores às observadas em casais heterossexuais”, isto porque, “tendo em conta que estes tratamentos implicam necessariamente o recurso a dador de esperma, o sucesso do processo de maternidade independente depende sobretudo de fatores femininos. O esperma doado é sujeito a uma seleção rigorosa, reduzindo a variabilidade associada ao contributo masculino”.
Questões emocionais, dúvidas práticas e desafios sociais
A maternidade independente faz-se acompanhar de dúvidas, incertezas e receios, sendo os mais frequentes, de acordo com a Dra. Alexandra Grade Silva, os “de natureza emocional, mais do que propriamente prática. Muitas mulheres experienciam sentimentos de autoculpabilização, diminuição da autoestima e comparação com pares com percursos considerados mais tradicionais”.
Há ainda dúvidas sobre a própria capacidade pessoal, “se conseguirão cuidar de um filho a solo e corresponder a todas as exigências da parentalidade”, com uma preocupação virada também para a rede de apoio, “ou a perceção da sua eventual fragilidade, existindo alguma incerteza quanto ao apoio real que os familiares e amigos estão dispostos a dar no quotidiano e em momentos de maior necessidade”.
Carolina Coimbra não tem dúvidas que “a maternidade independente é, muitas vezes, uma resposta pragmática às circunstâncias da vida, mas também uma decisão deliberada e empoderadora, que legitima novos modelos familiares. Os estudos mostram, de forma consistente, que as mães solteiras, por opção, beneficiam de redes de apoio social relevantes, nomeadamente de familiares e amigos”.
De acordo com a especialista, “a evidência científica sugere que a maternidade independente através de técnicas de reprodução assistida está associada a dinâmicas familiares positivas. A ausência de um segundo progenitor não parece prejudicar a qualidade da relação mãe–filho nem comprometer o desenvolvimento infantil. Pelo contrário, a intencionalidade desta autonomia reprodutiva, aliada a elevados níveis de compromisso e preparação materna, bem como o apoio da rede social, são determinantemente importantes para os bons desfechos destas estruturas familiares”.
Trata-se, acrescenta Alexandra Grade Silva, de “um projeto de vida legítimo e profundamente pessoal”, mas um caminho que não tem de ser percorrido sozinho. “Procurar acompanhamento médico e psicológico, conversar com outras mulheres que já passaram por experiências semelhantes e envolver familiares e amigos pode fazer uma grande diferença. Mais do que a estrutura familiar, o que mais contribui para o bem-estar de uma criança é a qualidade das relações, o afeto, a estabilidade e o ambiente emocional seguro. A família pode assumir diferentes formas e todas podem ser válidas quando há amor, responsabilidade e segurança”.














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