As mulheres procuram psicólogos por muitas razões, mas todas têm um ponto em comum: o peso insuportável de um mundo que não lhes dá descanso.

Artigo da responsabilidade do Dr. Alexandre Bogalho. Psicólogo Clínico. Neuropsicólogo de Hospitais Privados.

 

Oito de março – Dia Internacional da Mulher – trouxe consigo flores improvisadas, mensagens motivacionais e discursos inflamados, repetindo promessas e reconhecimentos vazios. A verdade, porém, está para além das celebrações e encontra-se nos consultórios de Psicologia, nas caixas de medicamentos para a ansiedade e nos dados estatísticos que quase ninguém quer discutir.

Portugal, esse país moderno e europeu, lidera a União Europeia no número de mulheres que reportam depressão persistente. Um título de que ninguém se orgulha, mas que parece colar-se à pele do País como um fado inevitável. Mais de 60 por cento das mulheres em Portugal correm risco de depressão grave e muitas outras vivem entre a ansiedade, o esgotamento e a exaustão que advêm de um sistema que lhes exige tudo e lhes devolve quase nada.

“VEJA SE MELHORA…”

O problema não é individual, nunca foi. Não são as mulheres que precisam de aprender a “lidar melhor com a pressão” ou a “gerir melhor o tempo”. São as estruturas que falham, as leis que não saem do papel e as soluções temporárias que não passam de distrações.

As mulheres procuram ajuda, falam, expõem-se. São as primeiras a querer resolver o problema. Mas depois batem de frente com um sistema de saúde mental sem profissionais suficientes, sem diretrizes médicas eficazes, sem espaço para tratar quem sofre de depressão moderada, porque os recursos são escassos e reservados para os casos mais graves. O resto? O resto é uma dose de comprimidos e um “veja se melhora…”.

No trabalho, a pressão continua. Não basta a carga mental de gerir a vida profissional e pessoal, é preciso ainda lidar com a desigualdade de oportunidades, o abuso, a despromoção disfarçada de “ajuste estratégico”.

As mulheres continuam a carregar um peso que não se distribui por igual. E não, não é falta de competência. Não é fragilidade. O problema é outro: um cansaço estrutural que mina a saúde mental e impede que se viva de forma plena.

UM MUNDO QUE NÃO LHES DÁ DESCANSO

As mulheres procuram psicólogos por muitas razões, mas todas têm um ponto em comum: o peso insuportável de um mundo que não lhes dá descanso.

  • A ansiedade e o stress não aparecem do nada, crescem ao ritmo de expetativas irreais e de um cansaço estrutural que não se resolve com um banho quente e chá de camomila. Pressões profissionais, responsabilidades familiares e desafios pessoais alimentam esta sobrecarga emocional, tornando essencial a procura de estratégias eficazes para gerir o stress e recuperar o equilíbrio mental.
  • A depressão, essa sombra persistente, surge entre jornadas duplas e a sensação de nunca estar à altura do que se espera. Caracteriza-se por sentimentos contínuos de tristeza, desmotivação e perda de interesse pelas atividades do dia a dia. A sua interferência na qualidade de vida faz com que muitas mulheres procurem ajuda psicológica para compreender e aliviar este sofrimento.
  • Problemas nos relacionamentos, seja com o parceiro, a família ou com o próprio espelho, minam a autoestima e a confiança, enquanto a solidão e a falta de apoio agravam a sensação de estar sempre a lutar sozinha. Separações, desentendimentos ou perdas significativas podem gerar conflitos emocionais profundos, sendo essencial um espaço seguro onde se possam explorar emoções e desenvolver estratégias para lidar com estas situações.
  • A baixa autoestima e a insatisfação com a imagem corporal são questões frequentes que afetam a forma como as mulheres se veem e se relacionam consigo próprias. A pressão para corresponder a padrões inatingíveis contribui para a insegurança e a autocrítica excessiva, tornando fundamental um trabalho terapêutico que promova uma relação mais saudável com a própria imagem e identidade.
  • Mudanças significativas, como divórcios, perda de emprego ou um diagnóstico médico difícil, representam desafios que podem abalar profundamente a estabilidade emocional. A psicoterapia ajuda a navegar por estas transições, oferecendo suporte na adaptação a novas realidades e na construção de um futuro mais seguro e equilibrado.
  • E há ainda os traumas, as feridas invisíveis que se recusam a cicatrizar e se instalam como um ruído de fundo, roubando qualquer hipótese de paz. Situações de abuso, violência ou experiências marcantes podem deixar marcas duradouras. Nesses casos, abordagens terapêuticas especializadas são fundamentais para processar o trauma e recuperar o bem-estar.

FORMAS DE ALIVIAR O FARDO

Felizmente, há formas de aliviar este fardo. A terapia cognitivo-comportamental ajuda a desmontar pensamentos destrutivos e a reconstruir um caminho mais leve. A terapia interpessoal ensina a comunicar melhor e a enfrentar conflitos sem se perder pelo caminho. A terapia baseada na compaixão convida a largar a culpa e a olhar para si própria com mais gentileza. As terapias de terceira geração, como a terapia de aceitação e compromisso e o mindfulness, ajudam a desenvolver uma relação mais saudável com os próprios pensamentos e emoções, promovendo a aceitação e a flexibilidade psicológica. E, por fim, os grupos de apoio e a terapia narrativa ajudam a encontrar sentido nas experiências e a perceber que ninguém tem de carregar tudo sozinha.

Leia o artigo completo na edição de março 2025 (nº 358)