Enquanto optometrista, um dos maiores desafios da saúde visual não está apenas na falta de acesso a cuidados, mas sobretudo na forma como olhamos para a visão no dia a dia. Durante anos, habituámo-nos a pensar que ver bem é suficiente. Assumimos que enquanto conseguirmos ler, conduzir ou trabalhar sem grandes dificuldades, está tudo bem. Mas não está necessariamente.
Artigo da responsabilidade de Nélia Silva. Optometrista da Optivisão
Na prática clínica, encontro frequentemente pessoas que dizem ver bem, mas que vivem com desconforto constante, dificuldades de concentração ou uma sensação de cansaço que não sabem explicar. Muitas vezes, estas queixas não são associadas à visão. São atribuídas ao stress, ao excesso de trabalho ou ao ritmo acelerado da vida moderna, mas, em muitos destes casos, a resposta está mesmo nos olhos.
Penso que este é um dos pontos-chave que precisamos de mudar enquanto sociedade. A visão não deve ser avaliada apenas pela ausência de sintomas evidentes, deve ser acompanhada como parte integrante da nossa saúde, tal como fazemos com outros indicadores de bem-estar.
Atualmente, passamos horas em frente a ecrãs, alternamos entre diferentes distâncias de foco ao longo do dia e exigimos cada vez mais do nosso sistema visual, muitas vezes sem lhe dar o devido descanso. Este esforço contínuo pode não causar uma quebra imediata da acuidade visual, mas tem impacto na forma como vemos e, sobretudo, na forma como nos sentimos ao longo do dia.
O verdadeiro problema é que continuamos a agir apenas quando algo falha de forma evidente. Quando já não conseguimos ler sem esforço, quando as dores de cabeça se tornam frequentes ou quando a visão começa a interferir com tarefas simples. Até lá, vamos ignorando pequenos sinais que, na verdade, já nos estão a dizer que algo precisa de atenção.
É aqui que a profissão de optometrista ganha um papel fundamental. Não apenas como resposta a um problema instalado, mas como ferramenta chave nos cuidados primários de saúde visual, atuando na prevenção e acompanhamento regular de diversas condições visuais. Uma consulta permite avaliar muito mais do que a necessidade de óculos. Permite avaliar a saúde ocular, perceber como os olhos trabalham em conjunto, como se adaptam às exigências do dia a dia e se estão a funcionar de forma eficiente.
Acredito que integrar este acompanhamento na rotina pode fazer uma diferença significativa na qualidade de vida. Não apenas ao nível do conforto visual, mas também na produtividade, na capacidade de concentração e até no bem-estar geral.
Outro ponto que considero essencial é a literacia em saúde visual. Em Portugal, sabemos que uma parte significativa da população vive com alterações visuais, muitas delas não diagnosticadas ou não acompanhadas. Ao mesmo tempo, cresce a pressão sobre o sistema de saúde, muito por força de problemas que poderiam ser minimizados com uma abordagem mais preventiva.
Estima-se que cerca de 4 milhões de portugueses têm algum problema de visão, muitos associados a erros refrativos não corrigidos. Ao nível global, a realidade é ainda mais expressiva: segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde, mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivem com deficiência visual, sendo que pelo menos mil milhões desses casos poderiam ter sido evitados ou ainda não foram tratados.
Para mim, estes números refletem, sobretudo, um défice de informação e de uma cultura preventiva. Quando a visão é desvalorizada, adiam-se consultas, ignoram-se sinais e perpetua-se um ciclo que acaba por agravar problemas simples. A Associação de Profissionais Licenciados de Optometria (APLO) alerta, aliás, que a falta de acesso e de acompanhamento atempado continua a ser uma das principais causas de deficiência visual evitável, com impacto direto na qualidade de vida, na produtividade e nos custos associados aos cuidados mais complexos.
Investir em literacia e em prevenção não é, por isso, só uma questão de saúde individual, mas sim uma necessidade com impacto no bem-estar da população em geral e na sustentabilidade do sistema de saúde. A prevenção começa na capacidade de reconhecer sinais e de agir antes que se tornem limitantes. E isso passa por mudar hábitos, mas também por valorizar o papel dos profissionais de saúde visual e o acompanhamento regular ao longo da vida.













