Mielodisplasias e leucemia mieloide aguda: o que falta para melhorarmos o tratamento?

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Recentemente, tem havido muita investigação no sentido de desenvolver tratamentos mais dirigidos a estas doenças. Temos grandes esperanças que estes novos tratamentos venham melhorar a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes.

Artigo da responsabilidade do Prof. António de Almeida, Diretor de Hematologia do Hospital da Luz e professor auxiliar convidado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

 

As síndromes mielodisplásicas (SMD) e a leucemia mieloide aguda (LMA) são ambas cancros do sangue que ocorrem com maior frequência em indivíduos com mais de 60 anos. Estas doenças desenvolvem-se como resultado de acumulação de erros genéticos que surgem espontaneamente, ao longo do tempo, nas células que produzem o sangue. É esta a razão pela qual estas doenças são mais frequentes na população mais idosa, na qual a sobrevivência longa dá mais tempo para a acumulação destes erros.

CORRIGIR A ANEMIA

As características clínicas destas duas doenças são bastante semelhantes. Ambas se manifestam com redução de produção das células do sangue: anemia, redução de glóbulos brancos e de plaquetas. Estas reduções têm consequências clínicas importantes, como maior suscetibilidade à infeção no caso dos glóbulos brancos e hemorragia no caso das plaquetas.

No entanto, a anemia é aquela que gera mais sintomas, como cansaço, falta de ar e dificuldade em realizar tarefas diárias. O impacto da anemia é muito mais grave nos doentes idosos, que muitas vezes já sofrem de doenças de coração e pulmões. Neste contexto, a anemia agrava ainda mais os sintomas que as outras doenças produzem. Por esta razão, é tão importante corrigir a anemia nos doentes com SMD a LMA.

TRANSFUSÕES: ESSENCIAIS, MAS INCÓMODAS

As transfusões de sangue são o tratamento mais usado para corrigir a anemia nestes doentes. Estas são quase inevitáveis e podem salvar a vida dos doentes com anemia grave. As transfusões são o tratamento mais eficaz em situações de urgência para corrigir anemias graves e também podem ser usadas para tratar anemia em doentes com anemia crónica. No entanto, as transfusões obrigam a deslocação regular ao hospital, um tempo prolongado de administração e, apesar de corrigirem a anemia, só o fazem durante um curto período de tempo.

É frequente doentes com SMD ou LMA precisarem de transfusões quinzenais ou mesmo semanais. A anemia e e as transfusões têm, portanto, um impacto muito negativo na qualidade de vida dos doentes. Consequentemente, apesar de as transfusões de sangue terem um papel essencial no tratamento destas doenças, o ideal seria ter tratamentos que corrigissem a anemia de modo estável, sem haver necessidade de recorrer a transfusões.

TRATAMENTOS MAIS USADOS

Os objetivos de tratamento das SMD e LMA nos doentes mais idosos são semelhantes: corrigir a anemia e outros componentes do sangue, minimizando assim os sintomas que estes produzem e atrasando a evolução da doença. Para desenvolver estes tratamentos foi preciso perceber bem os mecanismos que estão por trás das SMD e da LMA.

Nas SMD, as alterações genéticas levam a que as células que produzem o sangue morram mais precocemente na medula. Este processo faz com que a medula esteja cheia de células que se dividem muito, mas morrem antes de produzir sangue eficazmente. Ao longo do tempo, acumulam-se mais erros genéticos e a doença transforma-se em LMA.

Mais de 80% dos doentes com SMD sofrem de anemia. Apesar de percebermos cada vez melhor os mecanismos que estão por trás desta doença, ainda temos poucos tratamentos eficazes para corrigir a redução de produção de sangue. Os tratamentos mais usados nestes doentes são:

 Eritropoetina, a hormona que estimula a produção de glóbulos vermelhos. Esta só resulta em cerca de 30% dos doentes e, quando há resposta, esta dura, em média, 2 anos.

 Lenalidomida, um fármaco novo que tem excelentes resultados num subgrupo de doentes com SMD com uma alteração genética específica. No entanto, somente cerca de 20% dos doentes com SMD é que têm esta alteração genética.

A LMA é causada por uma acumulação de células imaturas que não conseguem produzir sangue, mas que ocupam o espaço da medula, não deixando as células normais que restam produzir o sangue. Nos doentes mais jovens, a LMA é causada por alterações genéticas pontuais, mas a LMA no idoso é mais complexa, com muitas alterações genéticas mais parecidas com as SMD. Esta diferença entre os tipos de alterações genéticas faz com que os tratamentos intensivos, como a quimioterapia e o transplante de medula, que funcionam bem nos doentes mais jovens, sejam menos eficazes nos doentes idosos.

Quase todos os doentes com LMA têm anemia. Enquanto nas SMD os tratamentos visam estimular a produção de glóbulos vermelhos, na LMA os tratamentos visam levar a que as células imaturas que se acumulam se transformem em células normais, capazes de produzir sangue. O tratamento mais eficaz tem sido com os agentes hipometilantes, Azacitidina e Decitabina. Com estes tratamentos, cerca de 60% dos doentes com LMA ou com SMD em evolução para LMA melhoram da sua anemia. Estas respostas duram uma média de 2 anos.

INVESTIGAÇÕES RECENTES

Apesar de se terem conseguido grandes avanços no conhecimento dos mecanismos por trás destas doenças, ainda temos poucos tratamentos eficazes a oferecer aos nossos doentes.

Recentemente, tem havido muita investigação no sentido de desenvolver tratamentos mais dirigidos a estas doenças. Alguns destes fármacos estimulam a produção de glóbulos vermelhos por outras vias e outros alvejam alterações genéticas específicas que estão na origem da evolução para a LMA. Temos grandes esperanças que estes novos tratamentos venham melhorar a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes com SMD e LMA.

Leia o artigo completo na edição de novembro 2019 (nº 299)

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