Diabetes: estaremos a entrar numa nova era do tratamento?

0

Um medicamento inovador, que já está a ser utilizado em Portugal, leva-nos a acreditar que podemos estar perante uma nova era no tratamento desta epidemia mundial.

 

 

0-jacome-de-castro-1Artigo da responsabilidade do Dr. João Jácome de Castro, Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo

 

Os dados sobre a diabetes não nos deixam indiferentes. Nesta que é considerada uma pandemia, que afeta 422 milhões de pessoas em todo o mundo, número que quadruplicou desde 1980, Portugal não é exceção. Segundo o Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes, mais de 1 milhão de pessoas, entre os 20 e os 79 anos (13,1% da população), têm diabetes. Estes valores colocam Portugal acima da média europeia.

1 EM CADA 10 PORTUGUESES

A diabetes é uma doença crónica e progressiva que se caracteriza por níveis de açúcar (glicose) elevados no sangue. A doença pode ser classificada em dois tipos principais: tipo 1, que surge normalmente nas crianças ou adolescentes; e tipo 2, frequentemente diagnosticada na idade adulta.

A diabetes tipo 2 é a forma mais comum e corresponde a cerca de 90 a 95% dos casos, ou seja, cerca de 1 em cada 10 portugueses tem este tipo de diabetes. Nos fatores de risco para a doença, são apontados pela OMS, como causas mais comuns, o excesso de peso, seguido do sedentarismo.

Estima-se que cerca de 400 mil pessoas em Portugal não sabem que têm a doença, elevando os riscos da sua condição. Quando se tem diabetes tipo 2, os níveis elevados de glicose (açúcar) no sangue podem levar a complicações de saúde graves. Estas complicações podem ser controladas ou minimizadas se as pessoas gerirem de forma adequada a sua doença, por exemplo através da adoção de medidas que permitam reduzir os níveis de glicemia, designadamente uma alimentação saudável, exercício físico regular e medicação adequada.

NUMEROSAS COMPLICAÇÕES

Lesões renais, oculares e neurológicas, problemas nos pés, doença do foro dentário ou disfunção sexual são algumas das comorbilidades associadas à diabetes. As complicações da diabetes tornam-na na primeira causa de cegueira e na principal causa de insuficiência renal terminal (em Portugal, cerca de 1/3 dos novos casos de hemodiálise têm diabetes). A doença é ainda responsável pelo maior número de amputações não traumáticas dos membros e todos os anos ocorrem cerca de 1600 amputações causadas pela diabetes no nosso país.

A principal causa de mortalidade nas pessoas com diabetes está, contudo, relacionada com os problemas cardiovasculares. A diabetes tipo 2 aumenta o risco de doença cardíaca e enfarte em cerca de 4 vezes. Em Portugal, os problemas de coração são também a principal causa de internamento entre os doentes diabéticos.

A diabetes provoca um conjunto de alterações no organismo que tornam mais frequentes e mais graves as doenças do coração. Há um processo inflamatório no interior dos vasos que os torna mais suscetíveis de sofrer fenómenos de oclusão e assim conduzir ao aparecimento de acidentes cardiovasculares.

TRATAMENTO INOVADOR

Numa altura em que estamos a caminho do centenário da descoberta da insulina no tratamento da diabetes, sabemos que os avanços científicos e tecnológicos realizados têm facilitado e melhorado muito os tratamentos e a qualidade de vida dos doentes. O último século trouxe evoluções que alteraram de forma significativa a maneira de tratar a diabetes e vigiar os níveis de glicemia.

Recentemente, foi apresentado um estudo, o LEADER, que mostrou ser possível reduzir o risco e mortes por doenças cardiovasculares nestes doentes. Estes dados dão-nos uma perspetiva positiva relativamente ao futuro e levam-nos a acreditar que podemos estar perante uma nova era no tratamento desta epidemia mundial, uma era focada em reduzir as comorbilidades associadas à doença e que estão na causa da mortalidade destes doentes.

O estudo LEADER demonstrou a eficácia do liraglutido (antidiabético) na redução da mortalidade e do risco de eventos cardiovasculares graves em doentes com diabetes tipo 2 e risco cardiovascular elevado. Os resultados preliminares começaram a ser apresentados em Junho de 2016, na 76ª Reunião Científica da Associação Americana de Diabetes, tendo sido publicados no New England Journal of Medicine. O estudo mostrou uma redução significativa de 22% de morte cardiovascular e reduções no enfarte do miocárdio não fatal e no AVC não fatal.

A acompanhar esta perspetiva animadora no tratamento dos doentes com diabetes tipo 2, foram ainda apresentados na 52º Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (EASD), em setembro de 2016, dados que sugerem ser possível reduzir a progressão das lesões renais nestes doentes.

Os resultados do estudo LEADER parecem abrir uma nova perspetiva no tratamento da diabetes tipo 2, permitindo agora, para além da redução da glicose e da perda de peso, evitar complicações cardiovasculares e reduzir os danos renais. Este tratamento inovador está já a ser utilizado em Portugal e com bons resultados.

POUPANÇAS PARA O ESTADO

Tendo em conta que o custo com os medicamentos constitui apenas uma pequena percentagem dos custos associados à diabetes, a inovação no tratamento pode gerar poupanças para o Estado, através da redução dos custos associados às complicações resultantes de um mau controlo glicémico.

Atualmente, os grandes desafios na área da diabetes em Portugal estão relacionados com o investimento no diagnóstico e tratamento precoces com fármacos que possuam um mecanismo de ação que atue nos diversos mecanismos da doença e que, além da eficácia no controlo glicémico, tenham potencial para reduzir as complicações associadas, nomeadamente ao nível cardiovascular. A correta gestão da doença deve incluir o controlo dos restantes fatores de risco cardiovascular, nomeadamente o excesso de peso, dislipidemia e hipertensão arterial.

 

 

Dados sobre a diabetes

  • Em Portugal, todos os dias, são diagnosticados 150 novos casos de diabetes;
  • A diabetes afeta mais de 1 milhão de portugueses (13,1%) e mata mais de 12 pessoas por dia;
  • Estima-se que 40% dos doentes não estão, ainda, diagnosticados e 40% não estão a ser tratados de forma adequada;
  • 422 Milhões de adultos têm diabetes em todo o mundo;
  • Todos os anos, 1,5 milhões de mortes são diretamente atribuídas à diabetes;
  • Estima-se que a diabetes possa atingir 642 milhões de pessoas em 2040.

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA