Cancro de cabeça e pescoço: a realidade pouco conhecida de uma doença em que o tempo conta

O diagnóstico precoce é fundamental para aumentar as taxas de cura do cancro de cabeça e pescoço, mas, nos casos avançados, é fundamental o trabalho em equipa, no centro do qual está o doente, de forma a tratar a doença e preparar o sobrevivente para a vida futura.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Ana Joaquim. Médica oncologista. Vice-presidente da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia (AICSO). Presidente do Grupo de Estudos de Cancro de Cabeça e Pescoço

 

V. é um homem de 56 anos que trabalha na indústria alimentar. Fuma 20 cigarros por dia desde os 16 anos e bebe 2 copos de vinho por dia. Em fevereiro, começa a sentir dor de garganta ao engolir. Inicialmente, ignora esta dor, pensando que seria uma inflamação. Até tinha apanhado frio no outro dia, “deve ser disso”, pensa. No entanto, contrariamente ao esperado, a dor continua a agravar-se e, cerca de dois a três meses depois, sente também um alto no lado direito do pescoço. Nessa altura, decide falar com a sua esposa, que lhe marca, de imediato, uma consulta no médico de família. Este percebe que a amígdala de V. tem uma lesão provavelmente tumoral e encaminha-o, rapidamente, ao Serviço de Otorrinologaringologia do hospital de referência. Em três semanas, é-lhe diagnosticado um cancro da orofaringe com metastização ganglionar.

Como V., em Portugal, são diagnosticados cerca de 3000 novos casos por ano de cancros da cabeça e pescoço.

Fatores de risco

Quando se fala de cancro de cabeça e pescoço, estamos a falar dos tumores das vias aerodigestivas da cabeça e do pescoço, isto é, as vias por onde circulam o ar e os alimentos, ou seja, a boca, o nariz, a faringe (que se divide em naso, oro e hipofaringe) e a laringe.

O principal fator de risco é o consumo crónico de tabaco e/ou bebidas alcoólicas. Percebe-se que assim seja, uma vez que estamos a falar das vias por onde circula o fumo do tabaco e as próprias bebidas.

Para o cancro da orofaringe, especificamente, existe outro fator de risco que tem vindo a adquirir maior expressão: a infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV). Esta é uma infeção sexualmente transmissível, pelo contacto pele com pele e/ou mucosa.

Outros fatores de risco são a higiene oral deficitária e próteses dentárias mal-adaptadas (no caso do cancro da cavidade oral), bem como a exposição a determinados agentes, como o pó da madeira ou da cortiça (no caso do cancro das fossas nasais e seios perinasais).

Sintomas desvalorizados

Tal como aconteceu com V., na grande maioria dos doentes recém-diagnosticados com cancro de cabeça e pescoço, os sintomas começam e desenvolvem-se sem que lhes seja dada a devida atenção.

Os sintomas do cancro de cabeça e pescoço são relativos às localizações especificadas antes – lesões da mucosa da cavidade oral (aftas, lesões brancas ou vermelhas), dor de garganta, dificuldade ou dor ao engolir, rouquidão, massas ou nódulos no pescoço.

Apesar destas queixas serem comuns a muitas doenças benignas, deve ser-lhes dada especial atenção quando duram três semanas ou mais. Nessa altura, a recomendação é procurar o médico.

Recorrer precocemente aos cuidados de saúde nestas situações é fundamental. Se, por um lado, é benéfico para o doente que não está a sentir-se bem, por outro lado, é fundamental para que esta doença seja diagnosticada precocemente.

Quando diagnosticado em fase inicial, o cancro de cabeça e pescoço é tratado com uma única modalidade de tratamento, como cirurgia ou radioterapia, com uma probabilidade de cura de cerca de 90 por cento.

Quando diagnosticado em fase avançada, os tratamentos são multimodais (ou seja, a combinação de cirurgia e/ou radioterapia e/ou quimioterapia), com a probabilidade de cura a descer para cerca de 50-60% e à custa de sequelas mais ou menos mutilantes dos tratamentos.

Infelizmente, dois terços dos novos casos ainda são diagnosticados em fase avançada, como foi o caso de V.

O tratamento

O diagnóstico de V. foi feito através de uma biópsia. Enquanto esperava este resultado, realizou vários exames – análises, uma TAC do pescoço e do tórax e uma PET-TC (um exame de Medicina Nuclear que permite detetar as regiões do organismo onde existe inflamação e/ou tumor). Após três semanas da consulta de Otorrinolaringologia, tinha o diagnóstico de carcinoma epidermoide da orofaringe p16 negativo (ou seja, não associado à infeção HPV), com extensão aos gânglios do pescoço, sem metastização à distância.

Em seguida, V. foi encaminhado a uma consulta de Oncologia, onde lhe foi explicado o tratamento: radioterapia diária (nos dias úteis), durante 7 semanas, e quimioterapia endovenosa, de 3 em 3 semanas.

Para suportar melhor o tratamento, foi aconselhado a colocar uma PEG (gastrostomia de alimentação), que é a colocação de um tubo no estômago, pela parede abdominal, por onde poderia alimentar-se se não conseguisse ingerir as quantidades necessárias de nutrientes e água pela boca.

Durante os tratamentos, teve aftas na boca e na garganta, para as quais tomou medicamentos de forma a não ter dor, e necessitou da PEG durante as últimas duas semanas dos tratamentos.

Quatro semanas depois de concluir os tratamentos, V. já se começava a sentir melhor, quase não utilizava a PEG e voltava a pensar no regresso ao trabalho.

Quatro meses depois, realizou novos exames, que mostraram que a doença tinha sido eliminada com os tratamentos. Foi-lhe explicado que seria vigiado, pois o risco de recidiva existe, bem como o risco de novos tumores associados aos mesmos fatores de risco, e que este é maior se mantivesse os hábitos tabágicos e etílicos.

Felizmente, V. tinha apagado o último cigarro no dia em que foi à Consulta de Otorrinolaringologia. Seis meses depois de concluir os tratamentos, já passavam dois meses de ter retirado a PEG, estava a retomar a atividade laboral, pronto para os novos desafios.

Os desafios dos sobreviventes

Após a conclusão dos tratamentos, são muitos os desafios que os sobreviventes de cancro de cabeça e pescoço enfrentam. Falamos da adaptação a uma nova realidade, que implica viver com sequelas dos tratamentos. Por exemplo, doentes como V., que realizam tratamento radical à base de radioterapia, ficam com a mucosa oral e da garganta seca e, muitas vezes, com o paladar alterado; e, a nível do pescoço, com a pele espessa e, por vezes, inchada.

Noutros casos, os doentes passam a viver traqueostomizados, necessitando de reaprender a comunicar. Noutros, ainda, ficam dependentes da PEG para alimentação. São muitas as situações em que é necessário realizar extrações dentárias múltiplas para que a radioterapia seja realizada em segurança.

Esta adaptação é possível, mas exige de todos – profissionais e instituições de saúde, sociedade, doentes e cuidadores – um esforço para oferecer os melhores cuidados de suporte a estes doentes, tentando minimizar as complicações e devolvê-los à sociedade, no final dos tratamentos, com qualidade de vida e aptos para retomar as suas atividades.

Para tal, são fundamentais várias valências de suporte desde o início da jornada terapêutica – Nutrição, Psicologia, Reabilitação, Assistência Social, entre muitas outras.

O diagnóstico precoce é fundamental para aumentar as taxas de cura desta doença, mas, nos casos avançados, é fundamental o trabalho em equipa, no centro do qual está o doente, acompanhado dos seus, de forma a tratar a doença e preparar o sobrevivente para a vida futura.

Artigo publicado na edição de julho/agosto 2021 (nº 318)

 

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