À luz da neurodiversidade moderna, diferentes formas de funcionamento cognitivo coexistem com criatividade, rigor e inovação.
Artigo da responsabilidade do Dr. Alexandre Bogalho. Psicólogo clínico. Neuropsicólogo.
Em 1944, quando a Europa ardia no seu conflito mais sombrio, um pediatra austríaco observava outro tipo de silêncio. Um silêncio que não vinha das bombas, mas de mentes recolhidas dentro de si: crianças cujo comportamento escapava às categorias clínicas da época e que, por isso mesmo, se tornavam invisíveis.
Hans Asperger, médico no Hospital Infantil de Viena, avaliou centenas de crianças e adolescentes com padrões comportamentais que, hoje, reconhecemos como características do espectro do autismo: dificuldades persistentes na comunicação social, interesses restritos e intensos, padrões de comportamento repetitivos e uma forma singular de processar o mundo.
CRIANÇAS DIFERENTES
Naquele tempo, porém, a psiquiatria infantil ainda operava sob categorias pré-neurodesenvolvimentais, fortemente influenciadas pela nosografia psicodinâmica e pela linguagem da psicopatologia clássica.
Sem ferramentas conceptuais modernas, Asperger denominou aquele conjunto de características de “autistische Psychopathie” – psicopatia autista – termo historicamente datado, impregnado da linguagem médica germânica da época. Décadas mais tarde, com o avanço da neurociência e da psiquiatria do desenvolvimento, esses quadros seriam reinterpretados como parte do que passou a ser denominado síndrome de Asperger.
O que Asperger reconheceu – mesmo sob as limitações éticas e científicas do período – foi que aquelas crianças não eram “defeituosas”. Eram diferentes. A sua arquitetura cognitiva revelava atenção hiperfocada, pensamento sistematizado e uma capacidade de concentração que, quando apoiada, podia manifestar-se em formas raras de competência.
Numa visão mais ampla para a Europa, revisões sistemáticas sugerem uma prevalência entre 2 a 25 em cada mil crianças (equivalente a cerca de 0,2% a 2,5%), dependendo dos métodos e critérios diagnósticos.
SINAIS E SINTOMAS
Os sinais e sintomas em adultos (ou em jovens não diagnosticados na infância) incluem dificuldades persistentes na comunicação social – como iniciação ou manutenção de conversas, reciprocidade social e uso de linguagem não-verbal – bem como interesses ou atividades restritos e repetitivos, sensibilidade atípica a estímulos sensoriais, e frequentemente diferenças na regulação emocional ou na coordenação motora.
Do ponto de vista da psicologia clínica e da avaliação neuropsicológica, recomenda-se a utilização de uma abordagem multidimensional: entrevista clínica estruturada para recolher a história de desenvolvimento, questionários padronizados, avaliação neuropsicológica para examinar funções executivas, atenção, flexibilidade cognitiva e regulação emocional, e ainda observação comportamental ou autorrelatos de nível de suporte. Esta avaliação permite delinear perfis cognitivos singulares e planear intervenções personalizadas, tais como treino em competências sociais, estratégias de regulação emocional, apoio à adaptação sensorial e elaboração de planos de vida centrados nas capacidades e preferências do indivíduo.
DIFERENTES FORMAS DE COGNIÇÃO
A história intelectual oferece paralelismos úteis: não diagnósticos retroativos, mas metáforas humanas sobre diferentes formas de cognição. Newton, socialmente desajeitado, mas magistral na matemática. Einstein, tardio na fala, mas rápido na imaginação. Dirac, silencioso, mas autor de uma das equações mais elegantes da física. Marie e Irène Curie, intensas e focadas ao extremo.
O que estas narrativas mostram, à luz da neurodiversidade moderna, é que diferentes formas de funcionamento cognitivo coexistem com criatividade, rigor e inovação. Neurodiversidade não é erro, é variação humana.














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