Asma grave: em busca de soluções inovadoras

A asma grave acarreta elevada carga física, mental, emocional, social e económica para os doentes e a sociedade. Felizmente, já existe uma grande variedade de tratamentos e moléculas, para além de diferentes tipos de inaladores, que permitem uma medicação mais eficaz e confortável.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Rita Gerardo. Médica pneumologista – Hospital de Santa Marta, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central. Comissão de Alergologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

 

 

A asma é a doença crónica mais comum na idade pediátrica e uma das doenças crónicas mais frequente na idade adulta. Estima-se que cerca de 260 milhões de pessoas em todo o mundo sejam afetadas por esta doença, calculando-se que, só em Portugal, atinja cerca de 600.000 indivíduos.

SINTOMAS TÍPICOS

A asma é uma doença inflamatória crónica das vias respiratórias caracterizada por obstrução transitória e variável, potencialmente reversível. Manifesta-se geralmente por sintomas respiratórios típicos: dispneia (sensação de falta de ar), pieira (respiração ruidosa semelhante a chiar ou miar), tosse seca e sensação de opressão torácica (descrita como sensação de peso no peito).

Os sintomas são potencialmente reversíveis e são controlados com o tratamento adequado. Podem, no entanto, ser incapacitantes e, por vezes, impedem a realização das atividades do dia a dia, seja em casa, seja no local de trabalho ou escola.

A maioria dos doentes apresenta formas ligeiras e moderadas da doença, as quais são facilmente tratadas e controladas. No entanto, cerca de 3 a 10% dos doentes com asma podem apresentar formas graves.

ELEVADA CARGA

A asma grave é descrita como asma que permanece não controlada apesar do tratamento otimizado com elevadas doses de corticoterapia e broncodilatadores inalados ou que necessita de alta dose de medicação para permanecer controlada.

A asma grave acarreta elevada carga física, mental, emocional, social e económica para os doentes e a sociedade. Calcula-se que seja responsável por mais de 50% dos custos totais com a asma.

A doença interfere, muito frequentemente, com a família, a vida social e a vida profissional, limita as escolhas de carreira e afeta a saúde emocional e mental, quer do doente, quer da sua família ou conviventes. Os doentes sentem-se, muitas vezes, sozinhos e mal compreendidos, uma vez que a sua experiência é tão diferente da maioria das pessoas com asma.

Os sintomas são mais frequentes e mais intensos, os fatores desencadeantes são mais difíceis de controlar e evitar, a dose de terapêutica necessária para controlar os sintomas é, geralmente, mais alta e/ou são necessários mais medicamentos (de diferentes grupos farmacológicos) para atingir o controlo. Muitas vezes, os sintomas permanecem, apesar da otimização terapêutica, com consequências na qualidade de vida do doente.

EXAMES DE DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da asma é feito com base na presença de sintomas respiratórios típicos e demonstração de limitação variável do fluxo aéreo. Os sintomas típicos variam em intensidade e ao longo do tempo e, geralmente, surgem em associação a um dos mecanismos desencadeantes (por exemplo, exercício, riso, infeção respiratória viral, alergénios). A limitação do fluxo aéreo comprova-se através da espirometria, um exame incluído nas provas de função respiratória.

Para além destes exames são, muitas vezes, pedidos outros, que permitem caracterizar o tipo de asma: análises laboratoriais ao sangue, testes de sensibilidade cutânea, radiografia torácica, provas de função respiratória completas, testes de broncoprovocação, doseamento do óxido nítrico exalado, entre outros.

O diagnóstico de asma grave implica, para além do referido acima, a presença de sintomas que permanecem não controlados apesar da otimização da terapêutica, da sua correta utilização e do cumprimento da posologia. Também é necessário excluir outros diagnósticos que podem ser confundidos com asma ou que podem agravar a asma pré-existente.

ALÍVIO E CONTROLO

A terapêutica da asma baseia-se em dois tipos de tratamento: alívio e manutenção. O tratamento de alívio tem como objetivo controlar os sintomas no momento em que surgem, aliviando, assim, as queixas. O tratamento de manutenção destina-se a controlar os sintomas através da sua toma diária e regular, mantendo, assim, os níveis de inflamação no mínimo; diminuir o grau de obstrução da via aérea; e reduzir ao mínimo o risco de ocorrência de agudizações. Inclui os corticosteroides inalados e os broncodilatadores de longa duração de ação.

É possível incluir dois tipos de medicação diferente dentro do mesmo inalador, tornando o tratamento mais simples, prático e eficaz. Mais recentemente, têm sido desenvolvidas novas moléculas, que permitem tratamentos mais eficazes e com menor número de tomas diárias (uma toma diária, em vez de duas ou mais). Também têm surgido novos dispositivos inalatórios que facilitam a capacidade de utilização pelo doente.

Os corticosteroides constituem a base da terapêutica de controlo da asma, devido à sua ação anti-inflamatória, sendo a terapêutica mais eficaz. Desde o início do seu uso na forma inalada que fazem parte essencial do tratamento da asma. A administração inalada permite elevada eficácia terapêutica com o mínimo de efeitos adversos.

Atualmente, a corticoterapia sistémica – oral ou injetável – está reservada no tratamento das agudizações moderadas a graves e ainda no tratamento de alguns doentes com asma grave. Apesar da sua elevada eficácia terapêutica, os efeitos adversos são consideráveis. Estes incluem obesidade, diabetes, osteoporose, cataratas, hipertensão arterial, entre outros, quando a terapêutica é administrada de forma continuada. O recurso a esta terapêutica deve ser ponderado, tendo em conta os benefícios terapêuticos e os riscos associados.

TERAPÊUTICA BIOLÓGICA

Mais recentemente, surgiram novas terapêuticas – terapêutica biológica para a asma – destinadas a grupos-alvo, como os doentes com asma grave. São altamente eficazes, no entanto, a sua administração é geralmente intra-hospitalar e com periodicidade que pode ser a cada duas, quatro ou oito semanas. Fazem parte da farmácia hospitalar, sendo bastante dispendiosos. Porém, a sua utilização não é sinónimo de suspensão da terapêutica prévia, nomeadamente da corticoterapia inalada.

Nem todos os doentes com asma grave são elegíveis para esta terapêutica. Ainda assim, numa larga maioria dos doentes com indicação, a eficácia é impactante nos vários aspetos do seu dia a dia. O decréscimo dos sintomas, a redução no número de agudizações da asma, o aumento da sua tolerância ao esforço e a diminuição na quantidade de medicação necessária para obter o controlo dos sintomas são exemplos do efeito da terapêutica biológica.

O doente com asma grave tem, atualmente, acesso a uma grande variedade de tratamentos e moléculas, para além de diferentes tipos de inaladores, o que permite que possa fazer a sua medicação da forma mais eficaz e confortável.

A finalizar, é importante ressalvar que a informação descrita é relativa ao doente em geral e não se destina a casos em particular. O aconselhamento junto do médico assistente é essencial no tratamento da asma.

Leia o artigo completo na edição de outubro 2021 (nº 319)

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