A conferência “Saúde das Mulheres, um potencial a alcançar”, promovida recentemente pela Médis e realizada na Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa, reuniu profissionais de saúde e especialistas de várias áreas para debater o estado atual e futuro da saúde em Portugal, em especial, a saúde da mulher.  Foram abordadas visões do ponto de vista clínico e social destacando a importância do bem-estar feminino ao longo das diferentes fases da sua vida.

De acordo com o Estudo Saúdes, apenas 10% das mulheres portuguesas referem ter altos níveis de saúde e bem-estar. As várias fases da vida, como a adolescência, a menstruação, a gravidez, a amamentação e a menopausa, são bolsas de mal-estar que necessitam de maior conhecimento e atenção. “Ser mulher é um desafio, estamos expostas a um enorme escrutínio público, numa busca constante pela perfeição em todas as áreas da nossa vida”, referiu Ana Povo, Secretária de Estado da Saúde, na abertura da conferência.

Se é verdade que as mulheres revelam uma esperança média de vida superior à dos homens, em contrapartida, os dados revelam estados de saúde inferiores. “60% das mulheres não se sentem bem”, afirma Carla Sousa Pontes, médica de Medicina Preventiva e Bem-Estar. A medicina não conheceu por completo o corpo da mulher durante muito tempo, já que “até ao início do século XXI nos manuais de anatomia constava apenas o corpo masculino”, acrescenta a profissional. Por razões históricas e culturais, o corpo feminino foi excluído de investigações médicas, o que contribuiu para lacunas significativas no diagnóstico e tratamentos. Situação que se pretende reverter.

O Estudo Saúdes revela ainda que muitas mulheres tendem a aceitar ou a ignorar o desconforto associado a fases como a menstruação, maternidade e menopausa. Segundo o estudo “Saúde das Mulheres, um potencial a alcançar”, 37% das mulheres identificam a menopausa como um período propício a instabilidade emocional, enquanto 52% apontam o pós-parto como particularmente desafiante. Uma conduta que se reflete, também, na relação com os profissionais de saúde, onde 22% das mulheres que possuem dores crónicas afirmaram que as suas queixas foram desvalorizadas.

A dor é um dos temas centrais identificados pelo estudo da Médis, com 31% das mulheres com dores crónicas a classificarem-nas como intensas e/ou insuportáveis. Na faixa etária acima dos 40 anos, 33% das mulheres portuguesas sofrem de dores crónicas, um número significativamente superior aos 14% registado nos homens.

No campo das dores crónicas, importa referir que, recentemente, Portugal deu um passo significativo na valorização da saúde feminina com a aprovação, a 14 de março de 2025, da lei que estabelece o regime de faltas justificadas para mulheres diagnosticadas com endometriose. Uma resposta face à doença crónica que incapacita centenas de mulheres e que permite três dias de faltas mensais ao trabalho, mediante atestado médico, sem perda de remuneração. A lei responde, assim, às reivindicações de associações e especialistas que há muito alertam para a desvalorização da dor feminina.

Outro fator que influencia o bem-estar feminino é a relação da mulher com o seu corpo. 71% das mulheres consideram ter peso elevado ou desejam perder alguns quilos, enquanto 55% já passou por processos de emagrecimento. “Estes dados refletem a pressão imposta por padrões de beleza difíceis de alcançar, que afetam negativamente a autoestima e podem contribuir para problemas emocionais como ansiedade e baixa confiança. A constante comparação com ideais irreais intensifica-se em momentos de transformação física, como a gravidez ou menopausa”, reforça Maria do Carmo Silveira, Responsável de Orquestração Estratégica do Ecossistema de Saúde Médis.

No meio de tudo isto, onde fica a felicidade? Júlia Pinheiro, oradora no painel ‘A Mulher, o Bem-Estar e a Felicidade’, afirma “Não estou entre os 10% de mulheres que sentem altos níveis de saúde e bem-estar. Felicidade é sentirmo-nos bem em frente ao espelho”.

Já Luís Menezes, CEO do Grupo Ageas Portugal, referiu que “o nosso objetivo final é chegar ao cidadão comum, informando, capacitando e promovendo uma cultura de saúde mais consciente e responsável. Acredito firmemente que debates como este são fundamentais para a partilha e o progresso no que concerne à saúde das mulheres”.