A evidência científica indica que a qualidade global do padrão alimentar é mais determinante para a prevenção do que a ingestão isolada de nutrientes e que a dieta mediterrânica será a que apresenta maior robustez científica no contexto pós-enfarte.
Artigo da responsabilidade da Dra. Filipa Costa. Nutricionista @filipacosta_nutricionista
O enfarte agudo do miocárdio (EAM) é uma das principais causas de doença e morte cardiovascular no mundo. Após um enfarte, a prevenção torna-se fundamental para reduzir o risco de recorrência, a progressão da aterosclerose (acumulação de placas de gordura nas artérias) e a mortalidade. Estas medidas de prevenção são também fundamentais antes de qualquer evento, ou seja, antes que o primeiro enfarte aconteça.
Adicionalmente ao tratamento farmacológico e reabilitação cardíaca, a intervenção nutricional é essencial, pois a forma como comemos e o restante estilo de vida (nível de atividade física, stress e qualidade de sono) são fatores de risco importantes para as doenças cardiovasculares. A boa notícia é que são fatores de risco modificáveis, ou seja, temos a oportunidade de mudar hábitos e ganhar saúde.
A gestão do peso corporal é outro ponto-chave, mas mais importante que o peso na balança é a composição corporal – a quantidade de gordura visceral (gordura acumulada na região abdominal) está associada a maior incidência de enfarte.
EXISTE UM PADRÃO ALIMENTAR IDEAL?
A ciência mostra que a adesão a longo prazo é mais relevante que a dieta “perfeita”. Existem vários padrões alimentares equilibrados capazes de melhorar a saúde cardiovascular, desde que sejam mantidos de forma consistente.
Enquanto nutricionista, defendo que deveremos sempre definir o tipo e composição de dieta conforme a situação clínica do doente, mas também considerando as preferências e realidade de cada doente – personalizada e individualizada – para que a adesão seja maior. Nem sempre a dieta “ideal” será a melhor para o doente, se ele não a conseguir seguir: promover uma dieta que permita alterar o estilo de vida, ganhar saúde e ser exequível a longo prazo será melhor do que não conseguir seguir a dieta “perfeita”. Uma dieta só é eficaz se for praticável. Pequenas mudanças sustentáveis trazem mais benefícios do que planos rígidos difíceis de manter.
A evidência científica indica que a qualidade global do padrão alimentar é mais determinante para a prevenção do que a ingestão isolada de nutrientes e que a dieta mediterrânica será a que apresenta maior robustez científica no contexto pós-enfarte.
DIETA MEDITERRÂNICA
A dieta mediterrânica caracteriza-se pelo elevado consumo de hortofrutícolas, leguminosas, cereais integrais, peixe, ingestão moderada de lacticínios e baixo consumo de carnes vermelhas, além de utilizar o azeite como principal fonte de gordura. Caracteriza-se também pelo baixo consumo de carnes processadas e produtos ultraprocessados.
Apesar de vivermos num país mediterrânico, o consumo de alimentos ultraprocessados tem vindo a aumentar, sendo este um dos parâmetros mais importantes a corrigir. Estudos demonstram que uma maior adesão à dieta mediterrânica está associada a uma redução na mortalidade total e cardiovascular.
OUTRAS DIETAS
Outro padrão alimentar que também demonstra benefícios relevantes é a dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), com resultados positivos na redução da pressão arterial e melhoria do perfil cardiometabólico. Embora nem todos os doentes com enfarte sejam hipertensos, esta condição é frequente, tornando este padrão alimentar particularmente benéfico em muitos casos.
A dieta plant-based, quando bem planeada, parece ter também associações favoráveis com menor risco cardiovascular. No entanto, é importante salvaguardar uma ingestão adequada de proteína e micronutrientes, pelo que não deve ser realizada sem acompanhamento profissional.
Independentemente do padrão alimentar escolhido, a verdade é que existe sempre um ponto em comum: privilegiar alimentos in natura ou minimamente processados, com elevado teor de fibras, gorduras insaturadas, antioxidantes e baixo teor de gorduras saturadas, açúcares adicionados e sal.
Leia o artigo e o dossier completos na edição de fevereiro 2026 (nº 368)














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