A 3 de março assinala-se o Dia Mundial da Vida Selvagem, uma data que nos convida a olhar para a biodiversidade não como algo distante ou abstrato, mas como parte integrante do equilíbrio que sustenta a vida no planeta — incluindo a nossa. Proteger a vida selvagem é, em última instância, proteger os ecossistemas de que dependemos para viver com saúde e qualidade.

Artigo da responsabilidade do Dr. Luís Figueiredo. Diretor-geral da VALORMED

 

A relação entre a ação humana e o impacto nos habitats naturais é hoje inegável. As escolhas que fazemos no quotidiano deixam marcas. Algumas são visíveis de imediato; outras permanecem silenciosas durante anos, acumulando efeitos nos solos, na água e nas cadeias alimentares. Entre essas escolhas está a forma como utilizamos e descartamos os medicamentos que já não precisamos ou ultrapassaram o seu prazo de validade.

Sabemos que os medicamentos são essenciais para tratar doenças, aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida. No entanto, quando não são corretamente encaminhados após a sua utilização, podem transformar-se numa fonte de contaminação ambiental com consequências profundas. Resíduos de fármacos deitados no lixo comum, ecopontos ou através dos esgotos domésticos acabam por atingir cursos de água, solos agrícolas e ecossistemas naturais, afetando espécies animais e vegetais.

Estudos internacionais têm vindo a demonstrar a presença de substâncias farmacêuticas em rios, lagos e aquíferos, com impacto direto na fauna selvagem — desde alterações comportamentais em peixes até perturbações nos sistemas reprodutivos de várias espécies. Estes efeitos não se limitam à vida animal: regressam até nós através da água, dos alimentos e do desequilíbrio dos ecossistemas.

É fundamental, por isso, compreender que a proteção da vida selvagem começa muitas vezes em casa. Cada embalagem vazia ou medicamento fora de uso e de prazo que não é corretamente encaminhado representa uma potencial marca negativa no ambiente. Em sentido inverso, cada entrega feita num ponto de recolha autorizado é um gesto simples que contribui para preservar a biodiversidade e proteger a saúde pública.

Em Portugal, a VALORMED tem vindo desde 1999 a assegurar a recolha e o tratamento adequado destes resíduos, prevenindo a sua libertação no ambiente e promovendo práticas responsáveis junto da população. Através de uma rede nacional de pontos de recolha em farmácias e parafarmácias, é possível garantir que os resíduos de medicamentos seguem um percurso seguro, sem colocar em risco os ecossistemas.

A campanha nacional VALORMED— “Há escolhas que deixam marcas no futuro do planeta” —, lançada no início deste ano, reforça precisamente esta mensagem: aquilo que descartamos não desaparece. As nossas escolhas diárias deixam marcas reais no futuro do planeta, na vida selvagem e, inevitavelmente, na nossa própria saúde. Já quando optamos pelo encaminhamento correto dos medicamentos, estamos a transformar uma potencial ameaça numa marca positiva de responsabilidade ambiental.

Assinalar o Dia Mundial da Vida Selvagem é, assim, reconhecer que a preservação da biodiversidade não depende apenas de grandes decisões políticas ou de ações globais. Depende também de gestos individuais, repetidos diariamente por milhões de pessoas. Separar os medicamentos fora de uso, entregá-los no local certo e adotar comportamentos conscientes são formas concretas de proteger os ecossistemas e as espécies que neles habitam.