Traumatismos vertebro-medulares: como minimizar as consequências mais graves

Todos os anos, em todo o mundo, mais de 500 mil pessoas sofrem uma lesão vertebro-medular. Na sua origem estão frequentemente acidentes desportivos ou de viação, sendo a prevenção o método mais eficaz para evitar as consequências graves deste tipo de lesões.

 

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Ricardo Rodrigues Pinto. Ortopedista. Cirurgião de Coluna. Diretor da Unidade Vertebro-Medular (UVM) do Centro Hospitalar Universitário do Porto. Professor auxiliar convidado de Ortopedia no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Membro da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral e representante da Campanha “Olhe Pelas Suas Costas”.

 

As lesões da coluna vertebral não são apenas lesões da coluna vertebral. A coluna vertebral forma um canal através do qual passam a espinhal medula e as raízes nervosas, responsáveis pela transmissão da informação entre o cérebro e o nosso corpo. Qualquer lesão que atinja a coluna vertebral pode afetar as suas estruturas (vértebras, discos intervertebrais, ligamentos), mas também a medula e as raízes nervosas.

LESÕES DA MEDULA: GRAVES CONSEQUÊNCIAS

A espinhal medula é responsável por receber e enviar sinais entre o cérebro e o nosso corpo, que permitem controlar a sensibilidade e a função motora, os esfíncteres (controlo urinário e fecal) e a função sexual.

Cerca de 50% das lesões medulares são completas, provocando a perda total da função motora e sensitiva abaixo do nível da lesão, e afetam de igual forma os dois lados do corpo (tetraplegia quando afeta os quatro membros, paraplegia quando afeta apenas os membros inferiores).

Numa lesão medular incompleta, pode ser mantida alguma função sensitiva ou motora abaixo do nível da lesão (tetraparésia, quando afeta os quatro membros, e paraparésia, quando afeta apenas os membros inferiores).

A coluna divide-se em regiões cervical, torácica, lombar e sagrada. Uma lesão que atinja a coluna pode afetar a espinhal medula e as raízes nervosas que emergem nesse nível e todas as que se encontram nos níveis mais abaixo, o que torna as lesões cervicais potencialmente mais graves do que as lesões a nível da coluna dorsal, lombar ou sagrada.

LESÃO SECUNDÁRIA PODE AGRAVAR A LESÃO INICIAL

No entanto, uma lesão medular não resulta apenas do dano causado pelo impacto inicial. A lesão primária pode desencadear aquilo que é conhecido como lesão secundária: uma série de alterações biológicas que ocorrem após o traumatismo inicial e que interferem com a capacidade de a medula recuperar e que podem mesmo agravar a lesão inicial.

A lesão secundária é provocada pelo traumatismo continuado da coluna vertebral, alterações na sinalização celular das células da espinhal medula, alterações na vascularização e inflamação da espinhal medula.

Dessa forma, a lesão primária é aquela que ocorre no momento do traumatismo. A única forma de a evitar é a prevenção deste tipo de acidentes, através de campanhas de sensibilização rodoviária, de mergulhos, etc., como é o caso da campanha “Olhe Pelas Suas Costas” (ver caixa).

A lesão secundária pode tornar uma lesão incompleta numa lesão completa ou pode fazer com que uma lesão num determinado nível da coluna vertebral ascenda a níveis mais proximais, afetando mais raízes nervosas e acarretando consequências mais devastadoras para o doente.

Da mesma forma, uma lesão vertebral que provoque instabilidade da coluna, mas que ainda não tenha lesado a espinhal medula pode, na ausência de uma estabilização adequada, levar ao traumatismo e a uma lesão medular.

TRATAMENTO CIRÚRGICO: ESTABILIZAR E DESCOMPRIMIR

De forma a evitar a lesão secundária, qualquer pessoa vítima ou suspeita de ser vítima de um traumatismo vertebro-medular deve ser imediatamente imobilizada e transportada para uma unidade Hospitalar onde possa ser tratada de forma atempada.
Até aos dias de hoje, o único tratamento comprovadamente eficaz para uma lesão vertebro-medular é o cirúrgico e consiste na estabilização da coluna vertebral, através da colocação de um colar cervical que impeça movimentos, e na descompressão da espinhal medula e das suas raízes nervosas. O objetivo da descompressão é o alívio da pressão sobre as estruturas neurológicas. Isto pode ser conseguido através da remoção das estruturas lesadas (disco intervertebral ou fragmentos ósseos) ou através do restabelecimento do normal alinhamento da coluna e do canal vertebral.

A instabilidade provocada pela lesão tem de ser eliminada, o que é habitualmente conseguido através da colocação de parafusos e/ou placas que estabilizem as vértebras lesadas.

BENEFÍCIOS DA CIRURGIA PRECOCE

Um dos principais benefícios da cirurgia precoce após uma lesão medular é preservar o fluxo sanguíneo para a coluna vertebral. Vários estudos mostraram que a cirurgia realizada nas primeiras 24 horas após a lesão medular leva a uma maior probabilidade de recuperação (parcial ou completa) da lesão da espinhal medula, bem como à redução do tempo de internamento, taxas de complicação e custos associados aos cuidados de saúde.

Falhando a prevenção deste tipo de lesões, a adequada estabilização da coluna de um traumatizado vertebro-medular e o seu transporte atempado para uma unidade hospitalar com capacidade para o diagnóstico e tratamento são a chave para evitar ou minorar este tipo de lesões.

“VOLTAREI A CAMINHAR?”

O prognóstico da recuperação neurológica após uma lesão medular depende da gravidade da lesão inicial. Quanto mais severa esta for, pior é o prognóstico. Outro fator prende-se com a localização da lesão. Geralmente, lesões na coluna torácica têm uma menor probabilidade de recuperação do que uma lesão cervical ou lombar. A maioria da recuperação após uma lesão medular ocorre nos primeiros 6 meses após a lesão, apesar de em alguns casos esta poder ocorrer até aos 5 anos.

Uma das principais questões que os doentes com lesões medulares colocam é se voltarão a conseguir caminhar. Os doentes com lesões completas da medula têm uma probabilidade inferior a 5% de voltarem a caminhar. Doentes com lesões incompletas, no entanto, têm uma probabilidade muito maior de poderem voltar a andar. Para esta recuperação, as primeiras 48 horas após a lesão são críticas.

A reabilitação após uma lesão medular é também fundamental para a recuperação funcional, mas também psicológica. Inclui treinos de força, exercício cardiovascular, condicionamento respiratório e exercícios de mobilidade e de alongamentos.

FÁRMACOS E CÉLULAS ESTAMINAIS

A investigação em lesões medulares tem sido particularmente profícua nos últimos anos, demonstrando um aumento nas terapêuticas disponíveis e em estudo em ensaios clínicos.

Os últimos avanços incluem fármacos neuroprotetores que possam diminuir o impacto das lesões medulares. Alguns fármacos têm demonstrado ser eficazes na minimização das lesões medulares em estudos animais, mas apenas estudos humanos em larga escala permitirão saber se – e em que magnitude – são úteis nas lesões medulares em humanos.

O transplante celular e as células estaminais, por exemplo, podem permitir substituir as células nervosas lesadas ou levar à sua regeneração. Apesar de os estudos em animais terem mostrado alguma eficácia, é importante perceber que os estudos em animais se baseiam em modelos de lesão medular que nem sempre permitem replicar de forma adequada aquilo que acontece em humanos.

NEUROESTIMULAÇÃO E ROBÓTICA

Além das terapêuticas medicamentosas e de transplantes celulares, a neuroestimulação e a robótica são áreas de investigação e inovação excitantes.

A neuroestimulação consiste no implante de corrente elétrica no espaço epidural, de forma a estimular a recuperação funcional dos nervos lesados e alguns estudos em humanos têm vindo a mostrar resultados muito promissores.

Por outro lado, a robótica, nomeadamente através do uso de exosqueletos, pode permitir a pessoas com lesões medulares voltarem a pôr-se de pé e caminhar.

Trata-se de áreas de investigação em constante evolução e que, nos próximos anos, irão trazer-nos inovações fantásticas na forma como tratamos os doentes com lesões vertebro-medulares.

Leia o artigo completo na edição de outubro 2021 (nº 319)

 

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