Escrevi este texto em Barcelona, onde decorria um Summit sobre tosse crónica refratária. Além dos maiores peritos mundiais neste tema, estiveram também presentes doentes que apresentaram duas recomendações.

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Nuno Neuparth. Professor catedrático da NOVA Medical School
A principal recomendação é no sentido haver um aumento da informação junto deles próprios, mas também dos profissionais de saúde em geral. O objetivo é evitar uma referenciação que prolongue desnecessariamente a agonia destes doentes. A maioria deveria ter a tosse crónica controlada em menos de um ano, o que permitiria reduzir significativamente a degradação da sua qualidade de vida.
A segunda recomendação passa pela constituição de uma ‘task force’, com o objetivo de lutar pelo reconhecimento da tosse crónica refratária como uma doença e não como um sintoma.
TOSSE DURANTE ANOS
A tosse é a queixa que origina mais procura de consultas médicas e é uma preocupação para os doentes quando se torna crónica, ou seja, quando se prolonga por mais de oito semanas. De acordo com o primeiro estudo feito em Portugal e publicado pelo nosso grupo, a tosse crónica encontra-se em 7 de cada 100 doentes observados em cuidados de saúde primários. A prevalência global média da tosse crónica é de 10 por cento.
Há doentes, porém, que têm tosse há muitos anos, por vezes décadas. Esta tosse designa-se por tosse crónica refratária (TCR), quando se excluem as quatro causas mais comuns da tosse crónica (vias aéreas superiores, doenças respiratórias inflamatórias, refluxo gastroesofágico e medicamentos do grupo dos IECA).
Não se conhecem os números exatos para a prevalência da TCR. Será sempre uma pequena parte dos 10% das pessoas que procuram cuidados médicos por tosse que dura há mais de oito semanas, mas tem um enorme impacto na qualidade de vida dos doentes.
MEDIR A HIPERSENSIBILIDADE
A maior parte dos doentes com tosse crónica refratária são do sexo feminino, sofrem de depressão e dificuldades de socialização provocadas principalmente pela incontinência urinária ou pelo medo de incomodar as pessoas à sua volta. Em muitos casos, impacta também o exercício da profissão.
Sendo a tosse um reflexo de defesa, que impede a entrada de líquido ou de corpos estranhos nos órgãos da respiração (vias aéreas, pulmões), o principal mecanismo conhecido da tosse que se arrasta por mais de oito semanas é uma hipersensibilidade deste reflexo.
Em Portugal, esta hipersensibilidade só pode ser medida no laboratório de Função Respiratória da NOVA Medical School. Sendo esta a única entidade em Portugal a realizar este teste e tendo sido pioneiros no estudo da epidemiologia da tosse crónica, a experiência adquirida pelo contacto com os doentes permite-nos acompanhar esta tese da “nova doença”.
NOVOS MEDICAMENTOS
Nos últimos anos, têm sido descobertos medicamentos para a tosse crónica refratária. Um destes medicamentos, com resultados robustos em ensaios clínicos, está comercializado em Espanha e noutros países, mas não em Portugal. Não é comparticipado, por estar a ser comparado a medicamentos antitússicos, muito antigos e ineficazes.
O reconhecimento da tosse crónica refratária como doença permitiria enquadrar estes avanços terapêuticos, garantir o acesso a medicação inovadora e, acima de tudo, reduzir o impacto económico e social de quem mais sofre, os doentes. Este é o caminho que os maiores especialistas internacionais defendem e que nós, na NOVA Medical School, também apoiamos e ensinamos: transformar conhecimento científico em políticas de saúde que respondam às necessidades reais dos doentes.














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