Obesidade: quando a gordura se transforma em doença

O doente com obesidade tem de se rodear de estratégias para a mudança comportamental e a promoção de um estilo de vida saudável. Isto também requer o empenho dos profissionais de saúde em reconhecer a obesidade como doença que é e em iniciar o seu tratamento mais precocemente.


Artigo da responsabilidade da Prof.ª Dra. Paula Freitas,
presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO)

 

 

 

A pandemia da covid-19 contribuiu para colocar de novo a obesidade na agenda da Saúde e criou maior necessidade de repensar como vemos e tratamos esta doença.

Apesar de, nos últimos anos, ter havido grandes progressos para melhor entender a ciência da regulação do peso e o desenvolvimento de melhores opções terapêuticas para tratar a obesidade, falar sobre o peso com os profissionais de saúde continua a ser um desafio que tem de ser ultrapassado, porque o médico pode, efetivamente, ser o seu melhor aliado.

DOENÇA CRÓNICA, COMPLEXA E MULTIFATORIAL

Precisamos do médico porque a obesidade é uma doença. É uma doença crónica, complexa e multifatorial. O excesso de “gordura” no organismo afeta o seu normal funcionamento e a qualidade de vida.

A “gordura”, ou tecido adiposo, é constituída por células, denominadas adipócitos, as quais, ao contrário do que se possa pensar, não são inertes ou passivas. Na verdade, estas células segregam hormonas e peptídeos que interagem com o coração, fígado, pâncreas e outros órgãos internos e podem provocar várias patologias.

TRATAR A BASE DO PROBLEMA

O doente com obesidade tem de se rodear de estratégias para a mudança comportamental e a promoção de um estilo de vida saudável. Ora, isto também requer o empenho dos profissionais de saúde em reconhecer a obesidade como doença que é e em iniciar o seu tratamento mais precocemente.

Uma das grandes barreiras que o doente com obesidade enfrenta é que, muitas vezes, os profissionais de saúde, até por limitação de tempo, tratam todas as outras doenças, inclusivamente aquelas que já são consequência da obesidade, mas não abordam o problema da obesidade. Precisamos de tratar a base do problema e não apenas a ponta do iceberg. E dar acesso, desde logo, nos cuidados primários de saúde, a consultas dirigidas para a prevenção e tratamento da obesidade ou para a prevenção da progressão para obesidade, nos casos de pré-obesidade.

MELHORAR O TRATAMENTO E A GESTÃO DA OBESIDADE

Por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Obesidade (4 de março), a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) e a Associação dos Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO), lançaram a plataforma “Recalibrar a Balança – por uma resposta holística e equitativa contra a obesidade”, iniciativa à qual se juntou, mais recentemente, a Sociedade de Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM). Esta plataforma tem como objetivo melhorar a forma como é feito o tratamento e gestão da obesidade, baseando esta atuação em cinco prioridades:

  • Promover uma abordagem holística e digna no tratamento da obesidade – do ónus individual é urgente passar para uma visão partilhada de saúde pública, no qual todos têm um papel a desempenhar;
  • Mobilizar recursos para garantir a formação especializada dos profissionais de saúde;
  • Criar um programa de consultas de obesidade nos cuidados de saúde primários;
  • Viabilizar a comparticipação do tratamento farmacológico da obesidade, garantindo equidade;
  • Criar mecanismos de combate ao estigma e descriminação associados a esta doença.

MODIFICAÇÃO DE COMPORTAMENTOS

Em complemento a estas medidas, está também a importância da modificação de comportamentos das pessoas com excesso de peso, aliados à terapêutica. É preciso disponibilizar estratégias de tratamento que incluam modificação comportamental, dieta, exercício e terapêutica farmacológica para os doentes com obesidade ou pré-obesidade e com comorbilidades, como diabetes, hipertensão arterial, apneia do sono, artroses, etc.

E temos ainda de disponibilizar, em tempo útil, tratamentos de cirurgia bariátrica ou metabólica para os doentes já com formas mais graves da doença.

Mais uma vez, o papel dos médicos e de outros profissionais de saúde é crucial e deve passar pela prevenção. Temos de implementar estratégias de prevenção primária, ou seja, dirigidas a toda a população, quer com excesso de peso ou não, de modo a fazer uma educação para a saúde a longo prazo, com enfâse na alimentação equilibrada e na prática regular de exercício físico. Estratégias essas que devem ser combinadas com programas de prevenção secundária, para aqueles já com pré-obesidade e em risco de progressão para obesidade e outros programas para as formas mais graves de obesidade.

RISCO ACRESCIDO

Estima-se a existência de 650 milhões de adultos a viver com obesidade em todo o mundo, segundo números da Organização Mundial de Saúde de 2016; e 1,5 milhões em Portugal (Inquérito Nacional de Saúde, 2019).

A obesidade é um risco acrescido de várias comorbilidades: além de aumentar o risco de morte por covid-19, esta doença é responsável por 80% dos casos de diabetes tipo 2, 35% dos casos de doença cardíaca isquémica, 55% dos casos de hipertensão e 40% dos casos de cancro na Europa.

A resposta eficaz na luta contra a obesidade depende de todos nós. Sem tratamento, a evolução da obesidade em Portugal é uma barreira à equidade socioeconómica e ao progresso do país. Portugal foi pioneiro no reconhecimento da obesidade enquanto doença crónica e problema prioritário de saúde pública, em 2004. Sejamos agora capazes de, com responsabilidade partilhada entre todos, procurar novos caminhos de ação.

Leia o artigo completo na edição de junho 2021 (nº 317)

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