Os EUA acabam de aprovar um medicamento que promete uma alternativa inovadora. Falo da aceclidina em gotas para tratamento da presbiopia. Vamos conhecer o seu potencial terapêutico, indicações e limitações.

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Eugénio Leite. Médico oftalmologista

 

A presbiopia constitui uma das alterações fisiológicas mais prevalentes associadas ao envelhecimento ocular. Trata-se de uma perda progressiva da capacidade de acomodação, resultante da diminuição da elasticidade do cristalino e da menor eficácia do músculo ciliar, o que compromete a visão de perto. Estima-se que mais de 1,8 mil milhões de pessoas em todo o mundo sejam afetadas, representando um desafio clínico e social relevante, sobretudo em populações ativas acima dos 40 anos.

SOLUÇÃO NÃO INVASIVA

Tradicionalmente, a correção da presbiopia baseia-se no uso de óculos – monofocais, bifocais ou progressivos – e, mais recentemente, em técnicas cirúrgicas – como implantes de lentes intraoculares multifocais.

Contudo, a procura por soluções não invasivas e farmacológicas tem vindo a crescer, impulsionando a investigação de colírios, como a aceclidina, que recentemente obteve a aprovação do FDA, e cuja comercialização se inicia ainda este ano nos Estados Unidos.

CARACTERÍSTICAS FARMACOLÓGICAS

A aceclidina é um agonista colinérgico muscarínico, com particular afinidade pelos recetores M3 localizados no músculo esfíncter da íris e no músculo ciliar. A sua ação promove miose – redução do diâmetro pupilar – e contração do músculo ciliar, aumentando a profundidade de campo e melhorando a visão de perto, sem recurso a lentes externas.

A vantagem teórica em relação a outros agentes colinérgicos, como a pilocarpina, reside na duração intermédia de ação e num perfil farmacodinâmico que poderá estar associado a menor incidência de efeitos secundários.

QUAL É A POPULAÇÃO-ALVO?

Os candidatos ideais para a utilização da aceclidina em gotas incluem:

  • Adultos entre os 44 e 55 anos, em fases iniciais a intermédias de presbiopia, com cristalino ainda relativamente transparente e funcional.
  • Indivíduos ativos profissionalmente, que procuram alternativas a óculos de leitura ou a cirurgias.
  • Utentes motivados para tratamentos farmacológicos diários, com boa adesão terapêutica.
  • Populações que valorizam a estética e a conveniência, evitando o uso de óculos em contextos sociais ou profissionais.

Não obstante, a aceclidina pode não ser adequada em fases avançadas da presbiopia –cristalino muito rígido – ou em doentes com outras doenças oftalmológicas graves.

INDICAÇÕES CLÍNICAS

A principal indicação é o tratamento sintomático da presbiopia em adultos saudáveis.

Estudos iniciais sugerem que a instilação diária de aceclidina pode melhorar a visão de perto, com início de ação em cerca de 30 minutos e duração entre 8 a 10 horas. Neste período de cerca de 30 minutos, pode haver perturbação de visão, pelo que não é aconselhável conduzir ou manusear equipamento perigoso.

Outras potenciais aplicações em investigação incluem:

  • Melhoria da visão noturna em doentes pseudofáquicos – doente com lente intraocular –, através do aumento da profundidade de campo.
  • Terapêutica combinada com colírios antimuscarínicos de curta ação, para modular o diâmetro pupilar em diferentes condições de luminosidade.

Apesar dessas hipóteses, a aprovação FDA foi exclusivamente na presbiopia.

COMPLICAÇÕES E EFEITOS ADVERSOS

Como qualquer agente farmacológico ocular, a aceclidina apresenta riscos e limitações. Os efeitos adversos mais frequentes são decorrentes da sua ação colinérgica local:

EFEITOS OCULARES

  • Miose excessiva, podendo reduzir a visão em ambientes com baixa luminosidade (“fenómeno de visão túnel”).
  • Cefaleias ou dor supraorbital, associadas à contração ciliar prolongada.
  • Visão turva transitória após a instilação.
  • Espasmo de acomodação, particularmente em doses elevadas.
  • Irritação ocular, hiperemia conjuntival e sensação de ardor.

COMPLICAÇÕES MAIS GRAVES (raras, mas relevantes)

  • Indução ou agravamento de catarata subcapsular anterior, pela estimulação crónica do metabolismo do cristalino.
  • Potencial precipitação de crises em doentes com glaucoma de ângulo estreito, devido à miose marcada.
  • Risco de descolamento da retina, sobretudo em indivíduos predispostos, pela tração vitreorretiniana associada à contração ciliar, sobretudo altos míopes ou com doenças de retina periférica graves.

SISTÉMICOS (muito raros, por absorção mínima)

  • Sintomas colinérgicos, como sudorese, náuseas, diarreia ou bradicardia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aceclidina em gotas surge como uma alternativa farmacológica inovadora para a presbiopia, respondendo à procura crescente por soluções menos invasivas do que óculos ou cirurgia. O seu mecanismo de ação, baseado na miose e no aumento da profundidade de campo, oferece resultados clínicos promissores em adultos de meia-idade, especialmente em fases precoces da presbiopia.

Contudo, a eficácia é transitória e dependente da administração regular, não constituindo uma cura definitiva. Além disso, o risco de complicações oculares, como redução da visão noturna, cefaleias ou até complicações mais graves, como o descolamento da retina, exige criteriosa seleção dos doentes e acompanhamento médico regular.

Assim, embora a aceclidina represente uma ferramenta valiosa no arsenal terapêutico contra a presbiopia, deverá ser integrada numa abordagem personalizada sempre por oftalmologista, que considere as necessidades visuais, preferências e condições clínicas de cada indivíduo.

As investigações clínicas em curso serão determinantes para consolidar a segurança a longo prazo e clarificar o papel deste fármaco na prática oftalmológica atual.