Como nutricionista tenho assistido, ao longo da prática clínica, a uma busca constante por um suplemento ou medicamento para emagrecer, por parte de quem procura uma consulta de nutrição para perder peso. É claro que a nova diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS), relacionada com as terapias para o tratamento da obesidade, veio trazer uma nova esperança, no entanto, é importante compreender que comer menos pode não significar comer melhor, e isto é uma preocupação.

Artigo da responsabilidade da Dra. Susana Teixeira. Nutricionista na António Gaspar Physio Therapy & Performance

 

A realidade é que, a longo prazo, as pessoas necessitam de continuar a refletir sobre a forma como se alimentam, identificar os padrões que as levaram até esta condição (obesidade) e ajustar gradualmente o seu dia a dia alimentar. Este continua a ser um dos grandes desafios na minha prática clínica.

As pessoas chegam à consulta com cada vez mais dúvidas relacionadas com a alimentação, muitas delas geradas pela desinformação disseminada nas redes sociais. A reflexão que faço é que a resposta a estas questões não se resolve com um medicamento, ou seja, de forma isolada não resolve a questão da obesidade. Sem dúvida que é positivo ver os pacientes a conseguirem controlar melhor a ingestão alimentar e a atingirem resultados que antes pareciam difíceis de alcançar, mas permanecem algumas questões, nomeadamente o que acontecerá após a interrupção da medicação e como garantir um acesso equitativo a estas terapias?

Os ambientes obesogénicos continuam a existir, os padrões alimentares construídos ao longo da vida e a relação com a comida mantêm-se mentalmente presentes, as escolhas alimentares continuam a ser influenciadas pelo contexto social e cultural, e a falta de literacia alimentar persiste.

Neste contexto, e dada a complexidade da doença, é fundamental que estes medicamentos sejam introduzidos de forma abrangente, com acompanhamento nutricional e mudanças comportamentais. Considero essencial fornecer ferramentas que sustentem essas mudanças, de forma a que se mantenham a longo prazo.

Existem vários padrões alimentares utilizados com sucesso na gestão do peso corporal. Destaco a dieta mediterrânica, sendo que a adesão às consultas de nutrição e a um plano alimentar individualizado são fatores determinantes nos resultados relacionados com o controlo do peso.

Para além disso, não podemos esquecer o papel da alimentação saudável na prevenção e no tratamento de várias doenças crónicas. Há uma frase que utilizo frequentemente em consulta, quando os pacientes atingem um resultado positivo devido à mudança de comportamentos — “aquilo que fez bem até agora não pode voltar para trás” — para ilustrar que as mudanças positivas no comportamento alimentar são mais bem-sucedidas quando mantidas ao longo do tempo.

Assim, e apesar de a procura por estes fármacos ter aumentado de forma significativa, impulsionada pelo entusiasmo mediático, semelhante ao que acontece com as “dietas da moda”, é essencial combater a desinformação, modificar e criar ambientes alimentares mais saudáveis, aumentar a literacia alimentar para promover escolhas mais conscientes e incentivar a prática regular de atividade física.

As terapias relacionadas com a perda de peso são essenciais, mas o trabalho no combate à obesidade deve continuar.