O termo epilepsia tem origem grega, do verbo epilambanein, que significa “atacar, apoderar-se, agarrar”. Nessa época, acreditava-se que as doenças eram consequência de ataques ou possessões por parte de deuses ou demónios. A epilepsia, pelas suas características peculiares e natureza súbita com manifestações inesperadas, era a doença mais associada a estes fenómenos paranormais, pelo que o termo foi gradualmente adquirindo um significado mais particular, acabando por se estabelecer como a designação da patologia.
Artigo da responsabilidade da Dra. Ariana Barros. Médica especialista em Neurologia nos Hospitais Trofa Saúde Penafiel e Marco de Canaveses
Foi uma das primeiras doenças neurológicas descritas na história da Humanidade, com relatos que datam de há mais de 3000 anos. Desde os primórdios, foi marcada pelo confronto entre explicações sobrenaturais e interpretações científicas – uma dicotomia que, apesar dos avanços da Medicina, ainda persiste em algumas regiões do mundo. Frequentemente associada a forças divinas ou demoníacas e geradora de medo coletivo, foi Hipócrates o primeiro a reconhecê-la como uma condição médica, uma visão que viria a ser reforçada mais tarde por Aristóteles. Contudo, apenas no século XIX, com Hughlings Jackson, passou a ser considerada uma doença neurológica.
À medida que se compreendeu melhor o funcionamento do cérebro e com o advento do eletroencefalograma, tornou-se evidente que as crises epilépticas resultam de descargas elétricas anormais dos neurónios, responsáveis pelas alterações súbitas dos movimentos, das sensações ou do comportamento. Hoje sabe-se que a epilepsia é uma doença do cérebro, caracterizada por crises epilépticas recorrentes, que podem variar de breves episódios de “desconexão” com a realidade, até convulsões mais visíveis, com movimentos bruscos e violentos, involuntários e generalizados do corpo. Em geral, as crises convulsivas são autolimitadas e duram de dois a três minutos.
Embora em muitos casos seja difícil identificar uma zona no cérebro onde a crise teve início, a epilepsia pode ter diversas causas, entre as causas mais comuns encontram-se as alterações genéticas e as lesões cerebrais causadas por traumatismos, infecções, acidentes vasculares cerebrais ou tumores. Pode também surgir como complicação da gravidez ou parto, ou por malformações no desenvolvimento do cérebro. Certas situações como falhas na medicação, estímulos muito intensos (luzes brilhantes, televisão, vídeo, computador), febre ou infeções, consumo de álcool, cansaço físico ou mental, privação de sono e ainda alterações hormonais ou do funcionamentos dos órgãos, podem desencadear novas crises em doentes com epilepsia e como tal devem ser evitadas.
A epilepsia pode afetar qualquer idade, sendo mais comum na infância e em idades mais avançadas. Em Portugal, cerca de 100.000 pessoas vivem com a doença — isso significa aproximadamente 1 em cada 100 portugueses, segundo dados recentes do estudo EpiPort da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia.
O diagnóstico de epilepsia baseia-se sobretudo na descrição e caracterização detalhada das crises. Registos em vídeos realizados por familiares ou cuidadores durante uma crise epiléptica podem ser extremamente úteis para confirmar o diagnóstico. Exames complementares, como o eletroencefalograma e a ressonância magnética ou tomografia computadorizada cerebral, ajudam a confirmar o diagnóstico e a compreender melhor a causa da doença. Em determinadas situações são necessários outros exames mais complexos, como a monitorização prolongada com vídeo-eletroencefalograma ou exames de Medicina Nuclear.
O tratamento da epilepsia começa, na maioria dos casos, com medicamentos que ajudam a regular a atividade elétrica do cérebro, reduzindo o número de crises – medicamentos anti-crise epiléptica. A escolha da medicação é sempre personalizada e selecionada de forma individual, em função do tipo de epilepsia, de fatores pessoais (idade, género, contexto profissional e estilo de vida) e de possíveis efeitos adversos. Em muitos casos, um único medicamento é suficiente para controlar a doença, mas noutros casos, poderá ser necessário combinar diversas medicações, ajustando-as gradualmente em função da resposta clínica. Atualmente, cerca de dois terços das pessoas com epilepsia conseguem controlar a doença apenas com medicação.
Quando a medicação não é suficiente para controlar as crises, outras abordagens terapêuticas devem ser consideradas. Graças aos avanços tecnológicos, é hoje possível identificar com maior precisão a área do cérebro onde as crises têm origem, tornando a cirurgia uma alternativa viável para algumas pessoas com epilepsia refratária. A cirurgia ressectiva é a única abordagem com potencial curativo e consiste na remoção da área do cérebro onde as crises se iniciam. Antes do procedimento, vários exames neurológicos garantem que a zona a tratar está bem identificada e que áreas saudáveis não serão afetadas. Nem todos os doentes ficam totalmente livres de crises — para muitos, o resultado é ter episódios mais ocasionais e mais fáceis de controlar. Um número reduzido de casos pode não melhorar e terá de encarar outras opções terapêuticas.
Em situações mais complexas, pode recorrer-se à hemisferectomia, reservada para casos excepcionais de epilepsia grave e difícil de controlar, especialmente em crianças que apresentam quedas frequentes nos episódios. Este procedimento envolve a remoção ou desconexão de um hemisfério cerebral, ajudando a reduzir drasticamente as crises. Outra alternativa paliativa é a calosotomia, que interrompe a ligação entre os dois hemisférios do cérebro ao remover o corpo caloso, a “ponte” que conecta e permite a partilha de informação entre os dois lados do cérebro. Esta técnica é usada apenas quando o foco da crise não pode ser localizado com precisão e é indicada para um número muito reduzido de candidatos, com indicações muito restritas.
Outra opção cirúrgica que tem um importante papel na redução da frequência e intensidade das crises consiste na estimulação do nervo vago. O tratamento envolve na implantação de um pequeno dispositivo, colocado debaixo da pele, abaixo da clavícula, que envia impulsos elétricos intermitentes ao nervo vago, responsável por transmitir sinais entre o cérebro e órgãos do tórax e abdómen. É uma intervenção relativamente simples e os resultados não aparecem de imediato, podem demorar de alguns meses até dois anos para se tornarem visíveis.
Por último, bastante difundida para o tratamento da doença de Parkinson, a estimulação cerebral profunda (DBS – da sigla em inglês deep brain stimulation), consiste na introdução de filamentos elétricos muito finos (eletrodos) numa região profunda do cérebro (núcleo anterior do tálamo) envolvida nos circuitos habituais das crises. Os eletrodos são conectados a um dispositivo estimulador (semelhante a um pacemaker) inserido também debaixo da pele no tórax, que envia sinais elétricos para modular os impulsos disfuncionais e evitar o desencadear da crise epiléptica. Está indicado atualmente em doentes com mais de 18 anos e que não sejam bons candidatos à cirurgia ressectiva. Tal como na estimulação do nervo vago, os resultados podem não ser imediatos, mas visíveis a longo prazo. O procedimento é globalmente seguro, mas a implantação é mais complexa do que a estimulação do nervo vago.
Adicionalmente às alternativas cirúrgicas, mudanças na alimentação podem ajudar no controlo de epilepsias refratárias. É o caso da dieta cetogénica, com alto teor de gorduras (lípidos), pobre em açúcares (hidratos de carbono) e um aporte adequado de proteínas. Com esta dieta, a energia corporal passa a ser proveniente dos produtos de degradação da gordura, designados corpos cetónicos, que têm propriedades que lhes conferem função antiepiléptica. Esta dieta é eficaz em adultos e crianças com epilepsia, mas apresenta algumas contraindicações e a sua implementação requer um cumprimento rigoroso e um acompanhamento médico e nutricional regular.
Por último, novos medicamentos, como o cenobamato, recentemente aprovado pelo Infarmed, oferecem esperança a quem sofre de epilepsia difícil controlo.
Apesar dos avanços científicos e das múltiplas opções de tratamento, o grande desafio continua a ser conseguir que cada vez mais pessoas fiquem livres de crises. Cada episódio não controlado afeta não só a saúde física, mas também o bem-estar emocional, a cognição e a qualidade de vida, além de reforçar o estigma social associado à epilepsia.














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