Hoje, graças aos avanços da Medicina Cardiovascular, é possível tratar muitas doenças do coração com menos agressividade, menos tempo de internamento e uma recuperação muito mais rápida.
Artigo da responsabilidade da Prof.ª Dra. Joana Delgado. Presidente da Associação Portuguesa de Cardiologia de Intervenção (APIC)
O coração é, talvez, o órgão mais poético do corpo humano, sendo frequentemente associado às emoções, ao amor e à vida. Mas para lá da poesia, trata-se de uma máquina extraordinariamente eficiente, que trabalha sem descanso desde o nascimento até ao último dia de vida, que bombeia cerca de cinco litros de sangue por minuto para todo o organismo. Infelizmente, nem sempre recebe os cuidados que merece e as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal e no mundo.
UMA NOVA ERA NA SAÚDE CARDIOVASCULAR
Durante muitos anos, um diagnóstico cardíaco grave significava cirurgias complexas, longos internamentos e uma recuperação difícil, com impacto profundo na qualidade de vida. Hoje, essa realidade mudou de forma profunda graças aos avanços da medicina cardiovascular, que permitem tratar muitas doenças do coração com menos agressividade, menos tempo de internamento e uma recuperação muito mais rápida.
Hoje, a realidade é radicalmente diferente. Entrámos numa era em que a inovação na intervenção cardiovascular permite não só salvar vidas em tempo recorde, mas também tratar doenças complexas das válvulas cardíacas sem a necessidade de cirurgias invasivas de peito aberto.
A Cardiologia de Intervenção tornou-se a “cirurgia sem bisturi”, onde o conhecimento médico se alia à tecnologia de ponta para oferecer resultados que, há apenas 20 anos, pareceriam ficção científica. Através de pequenos orifícios na pele, é possível aceder ao coração pelos vasos sanguíneos e corrigir problemas estruturais com dispositivos de elevada precisão, reduzindo o impacto no organismo e acelerando significativamente a recuperação.
ENFARTE: QUANDO O TEMPO É MÚSCULO
O enfarte agudo do miocárdio continua a ser uma das principais causas de mortalidade em Portugal, mas o seu desfecho mudou radicalmente nas últimas décadas. Para o compreender, imagine as artérias coronárias como estradas vitais que transportam combustível (oxigénio) até ao músculo cardíaco. Quando uma dessas estradas fica subitamente bloqueada, geralmente por um coágulo formado sobre uma placa de colesterol que se rompeu, o músculo cardíaco deixa de receber oxigénio. Se a circulação não for rapidamente restabelecida, esse músculo começa a sofrer e pode morrer de forma irreversível.
Na medicina moderna existe um princípio simples e absoluto: “tempo é músculo”. Cada minuto de atraso no tratamento significa perda de tecido cardíaco que não será recuperado. Essa perda traduz-se, mais tarde, em insuficiência cardíaca com consequente cansaço crónico e limitações importantes na qualidade de vida.
DOENÇA VALVULAR: AS PORTAS DO CORAÇÃO
Se o enfarte é um problema nas “estradas”, a doença valvular é um problema nas “portas” do coração. Temos quatro válvulas que garantem que o sangue flua na direção correta. Com o envelhecimento da população e a crescente calcificação dos tecidos, as doenças valvulares tornaram-se um desafio de saúde pública.
1. Estenose aórtica: o desafio da calcificação
A válvula aórtica é a porta principal de saída para o corpo. Com a idade, ela pode calcificar e tornar-se rígida. O coração tem, então, de fazer uma força hercúlea para bombear o sangue através de uma abertura mínima. Os sintomas – cansaço fácil, falta de ar, dor no peito ou desmaios – são muitas vezes ignorados como “coisas da idade”.
Graças à técnica TAVI (Implante de Válvula Aórtica Transcateter), conseguimos substituir esta válvula através de um cateter inserido via virilha. Este procedimento, realizado com o doente muitas vezes acordado, permite uma recuperação em 48-72 horas, devolvendo a autonomia a doentes que anteriormente não tinham esperança de sobrevivência.
2. Insuficiência mitral e tricúspide
Quando as válvulas mitral ou tricúspide não fecham corretamente, o sangue recua dentro do coração, originando cansaço marcado, falta de ar e inchaço das pernas. Durante muitos anos, a cirurgia convencional foi a única opção. Hoje, a realidade é diferente.
Para além das técnicas de reparação por cateter, utilizando pequenos dispositivos que ajudam a válvula a fechar melhor, já existem também soluções de substituição valvular percutânea em doentes selecionados.
Estas abordagens minimamente invasivas, realizadas através de cateteres introduzidos pelos vasos sanguíneos, permitem reduzir de forma significativa os sintomas, diminuir os internamentos hospitalares e melhorar a qualidade de vida, sobretudo em doentes mais idosos ou com elevado risco cirúrgico.
Leia o artigo e o dossier completos na edição de fevereiro 2026 (nº 368)














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