O cancro do cólon e reto (CCR) é um dos maiores problemas de saúde pública, sendo o 3.º cancro mais frequente e o 2.º mais mortal a nível mundial. Em Portugal, segundo dados do Globocan de 2022, o CCR é o cancro mais frequente e o segundo mais letal.
Artigo da responsabilidade da Dra. Rita Sousa. Gastrenterologista no Hospital Luz Lisboa
IMPORTÂNCIA DA DETEÇÃO PRECOCE
A maioria dos CCR desenvolve-se a partir de pólipos, que são protuberâncias para o interior do intestino e que, se não forem removidos, podem transformar-se em cancro. Na maioria dos casos, estas lesões percursoras são assintomáticas e a colonoscopia é fundamental para a sua deteção e remoção.
Numa fase inicial, o CCR é assintomático e, por essa razão, apenas detetável por exames de rastreio, sendo que, em 70 a 90% dos casos, é diagnosticado já em fase sintomática.
Os sinais e sintomas mais frequentemente presentes são: dor abdominal, diarreia ou obstipação recente, perdas hemáticas, anemia com défice de ferro e emagrecimento.
Os doentes sintomáticos ao diagnóstico apresentam tipicamente doença mais avançada e pior prognóstico. No entanto, quando a doença está limitada ao intestino, a sobrevida livre de doença aos 5 anos varia entre 50 e 90%.
FATORES DE RISCO NÃO MODIFICÁVEIS
Os fatores de risco de CCR incluem alguns modificáveis e outros que não podemos mudar. Sabemos que os indivíduos do sexo masculino, com idade superior a 50 anos, com doença inflamatória do intestino, história pessoal de CCR ou de pólipos, assim como história familiar de CCR, têm um risco aumentado de CCR.
Apesar da maior incidência de CCR em indivíduos com mais de 50 anos, tem-se verificado um aumento da incidência antes dos 50 anos, que atualmente corresponde a 10% de todos os novos diagnósticos.
Cerca de 30% dos casos de CCR surgem no contexto de história familiar e destes apenas 2-3% correspondem a síndromas genéticos. Na presença de história familiar de CCR, o risco é maior quando são afetados os familiares em primeiro grau, quanto mais jovem for o familiar atingido e quanto maior o número de familiares com CCR.
FATORES MODIFICÁVEIS
Os fatores modificáveis estão relacionados com os hábitos e estilos de vida. A World Health Organization elencou os mais relevantes como sendo a elevada ingestão de carne processada, a baixa ingestão de frutas e vegetais, o sedentarismo, a obesidade, os hábitos tabágicos e o consumo excessivo de álcool.
Por seu lado, o World Cancer Research Fund concluiu que 47% de todos os CCR poderiam ser prevenidos pela adoção de um melhor estilo de vida, nomeadamente melhor dieta e exercício físico.
RASTREIO DE BASE POPULACIONAL
O rastreio permite identificar pólipos ou tumores ainda na fase assintomática e aplica-se a indivíduos entre os 50 e os 74 anos. Pode ocorrer de modo organizado e monitorizado, ser efetuado no contexto de um programa de rastreio ou ser oportunístico, realizando-se num contexto clínico ou diagnóstico, independente da política de rastreio pública.
Em Portugal, o rastreio de base populacional está disponível através da pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF). Se o teste for negativo, será repetido no espaço de 2 anos. Se o teste for positivo, o indivíduo deverá realizar uma colonoscopia. Apesar de ser utilizado um teste simples e de aplicação no domicílio, em 2022, o programa nacional apresentou uma taxa de cobertura populacional de 33% e uma taxa de adesão de 41%. Mais de mil lesões foram detetadas em colonoscopias após PSOF positivo, mas muitas mais teriam sido encontradas se todos os convocados tivessem realizado o exame.
COLONOSCOPIA
A colonoscopia é o método de rastreio mais completo, que permite diagnosticar e remover pólipos na mesma sessão, sabendo que reduz em 76 a 90% a incidência e em 53 a 92% a mortalidade por CCR. Se forem detetados pólipos, o intervalo até à próxima colonoscopia depende do número e tipo histológico dos mesmos. Se não forem detetados pólipos, a colonoscopia só terá de ser repetida no espaço de 10 anos. A colonoscopia é realizada com apoio anestésico e apresenta uma taxa de complicações inferior a 1 por cento.
O CCR continua a ser uma das principais causas de morte por cancro em Portugal, mas pode ser prevenido e detetado precocemente, pela adoção de um estilo de vida saudável e pela adesão a um programa de rastreio.
Mitos e verdades
É importante desfazer alguns mitos e reforçar algumas verdades em relação ao cancro do cólon e reto.
Mito – O CCR é sempre fatal.
Verdade – Mais de 90% das pessoas com CCR detetado cedo sobrevivem mais de 5 anos.
Mito – Só os idosos têm CCR.
Verdade – Também pode surgir antes dos 50 anos.
Mito – Só quem tem sintomas precisa de colonoscopia.
Verdade – O rastreio é realizado em pessoas assintomáticas.
Mito – A colonoscopia é perigosa.
Verdade – A colonoscopia é segura, com taxa de complicações inferior a 1%.
Mito – Um estilo de vida saudável impede o desenvolvimento de CCR.
Verdade – Um estilo de vida saudável diminui o risco de CCR, mas não impede o seu desenvolvimento.
Saiba mais sobre saúde digestiva na Edição Especial SAÚDE E BEM-ESTAR – Conselhos Médicos nº43 – SAÚDE DIGESTIVA, integralmente redigida com o apoio científico da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia















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