A gravidez é um período de profundas alterações no organismo feminino, e a pele não é exceção. As modificações hormonais, metabólicas, imunológicas e vasculares próprias da gestação podem refletir-se na pele, no cabelo e nas unhas. Na maioria dos casos, são alterações fisiológicas, que fazem parte da adaptação normal à gravidez e tendem a melhorar depois do parto. Algumas manifestações, porém, justificam avaliação médica.

Artigo da responsabilidade da Dra. Maria Goreti Catorze. Dermatologista e secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV)

 

Uma das alterações mais frequentes é o aumento da pigmentação da pele. É comum observar-se o escurecimento das aréolas mamárias, da região genital e da linha média do abdómen, originando a chamada linea nigra. Sinais e sardas já existentes podem também tornar-se mais pigmentados. Na face pode surgir melasma, caracterizado por manchas acastanhadas, sobretudo na fronte, zonas malares e lábio superior. A exposição à radiação ultravioleta e à luz visível pode favorecer o seu aparecimento ou agravamento, pelo que a fotoproteção é particularmente importante durante a gravidez.

Recomenda-se a utilização diária de um protetor solar de largo espectro, com proteção UVA e UVB e fator de proteção elevado, preferencialmente SPF 50+. Os protetores com filtros minerais, como o óxido de zinco e o dióxido de titânio, são uma boa opção durante a gravidez devendo optar-se por formulações sem oxibenzona. No melasma, os protetores com cor contendo óxidos de ferro são particularmente úteis, por proporcionarem proteção adicional contra a luz visível. A fotoproteção deve ser complementada com outras medidas, como chapéu de abas largas, procura de sombra e redução da exposição solar nas horas de maior intensidade.

Também muito frequentes são as estrias, sobretudo no abdómen, mamas, coxas e nádegas. Resultam da combinação entre a distensão da pele, fatores hormonais e predisposição individual. Inicialmente podem apresentar uma tonalidade rosada ou avermelhada, tornando-se progressivamente mais claras. Apesar da grande variedade de cremes e óleos comercializados para a sua prevenção, nenhum produto garante que não apareçam.

Podem ainda surgir alterações vasculares, como pequenos vasos dilatados na face e no tronco, vermelhidão das palmas das mãos, varizes e edema dos membros inferiores. Muitas destas manifestações diminuem ou desaparecem espontaneamente depois do parto.

Cabelo e unhas também mudam

Durante a gravidez, muitas mulheres notam o cabelo mais denso, uma vez que as alterações hormonais prolongam a sua fase de crescimento. Após o parto acontece frequentemente o fenómeno inverso: cerca de dois a quatro meses depois pode verificar-se uma queda de cabelo mais acentuada, denominado deflúvio telogénico pós-parto. Embora possa causar preocupação, é habitualmente transitória, ocorrendo recuperação progressiva nos meses seguintes. As unhas podem crescer mais rapidamente, mas também tornar-se mais frágeis com alterações na superfície.

Quando a comichão merece atenção

O prurido ou comichão é relativamente frequente durante a gravidez e pode resultar simplesmente da secura e distensão da pele. Contudo, quando é intenso, persistente ou acompanhado por uma erupção cutânea, deve ser avaliado.

A erupção atópica da gravidez é a dermatose específica da gravidez mais frequente e surge habitualmente no primeiro ou segundo trimestre. Pode corresponder ao agravamento de um eczema previamente existente ou aparecer pela primeira vez durante a gestação. Caracteriza-se por prurido, pele seca e lesões eczematosas, frequentemente na face, pescoço e zonas de flexão dos membros; por vezes predominam pequenas pápulas pruriginosas no tronco e membros. É uma situação benigna para o feto e pode ser controlada com cuidados adequados da pele e, quando necessário, tratamento prescrito pelo médico.

A erupção polimorfa da gravidez aparece geralmente mais tarde, sobretudo nas últimas semanas da gestação e com maior frequência na primeira gravidez. As lesões, avermelhadas e muito pruriginosas, começam habitualmente no abdómen, frequentemente sobre as estrias, poupando em regra o umbigo, e podem estender-se às coxas, nádegas e membros. Apesar do desconforto, não representa habitualmente risco para a mãe ou para o bebé.

Mais raro é o penfigoide gestacional, uma doença autoimune que pode começar com lesões muito pruriginosas, frequentemente em redor do umbigo, e evoluir para a formação de bolhas. Requer diagnóstico e acompanhamento dermatológico e obstétrico.

Particular atenção merece o prurido intenso sem lesões cutâneas primárias, sobretudo quando envolve as palmas das mãos e as plantas dos pés e se intensifica durante a noite. Pode ser manifestação de colestase intra-hepática da gravidez, que não é propriamente uma doença da pele e requer avaliação médica e obstétrica, pelas possíveis implicações para a mãe e para o bebé.

Cuidados e tratamentos durante a gravidez

Doenças dermatológicas pré-existentes, como acne, eczema ou psoríase, podem melhorar, manter-se ou agravar-se durante a gestação. Por outro lado, nem todos os medicamentos e produtos habitualmente utilizados em Dermatologia são adequados nesta fase.

Por esse motivo, uma mulher grávida deve informar o médico sobre os medicamentos e produtos que utiliza e evitar iniciar tratamentos por iniciativa própria. Os retinoides, em particular, estão proibidos durante a gravidez, e qualquer tratamento dermatológico deve ser adaptado à gestação.

A maioria das alterações cutâneas que ocorre durante a gravidez é benigna e transitória. Conhecê-las permite viver esta fase com maior tranquilidade, mas também reconhecer situações que não devem ser desvalorizadas. Prurido intenso, aparecimento de bolhas, erupções extensas ou de instalação súbita e qualquer alteração da pele que suscite preocupação justificam avaliação médica.