Viver com psoríase: olhos que veem, coração que sente

Dia Mundial da Psoríase  – 29 de outubro

Artigo da responsabilidade de Dr. Miguel Alpalhão, médico interno de Dermatovenereologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte; assistente-convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; investigador na Unidade de Investigação em Dermatologia do Instituto de Medicina Molecular

 

A psoríase em placas é uma doença inflamatória sistémica, cujas manifestações mais evidentes são as lesões na pele. É uma doença relativamente frequente, presente em cerca de 2-3% da população portuguesa. Na maioria dos casos, é caracterizada pelo aparecimento de manchas e placas vermelhas, com escama prateada, que atingem preferencialmente o couro cabeludo, os cotovelos, a região lombar e os joelhos. No entanto, a psoríase pode atingir qualquer área da pele, bem como as unhas, e, em casos mais graves, pode afetar mais de 90% da pele de um indivíduo.

Numa primeira consideração, é difícil imaginar o impacto que a psoríase em placas tem na vida individual. Em pleno século XXI, vivemos um anacronismo no qual convivemos com um estigma medieval relacionado com as doenças cutâneas, em que o subconsciente coletivo associa (erradamente) estas patologias a um risco de contágio. Começamos, pois, a perceber as limitações que estas lesões na pele trazem à vida quotidiana. Desde logo, a nível profissional: lembro-me de um utente, empregado na restauração, que me contava, em lágrimas, que estava em risco de perder o emprego porque alguns clientes recusavam comer os produtos por ele servidos, ao ver as lesões de psoríase nas mãos. Por outro lado, a vida social é também impactada, favorecendo o isolamento dos doentes, que se privam de frequentar locais públicos, como praias e piscinas, porque não aguentam o olhar suspeito (e de aversão) de que são frequentemente alvo. Até na esfera íntima se fazem sentir os efeitos nefastos do estigma da psoríase, com maiores taxas de divórcio em pessoas com psoríase, de acordo com alguns estudos internacionais. Não é, portanto, de estranhar que quem vive com a psoríase reporte um impacto na qualidade de vida de magnitude semelhante ao causado por doenças oncológicas, problemas de visão, doença renal com necessidade de diálise ou problemas cardiovasculares, nem que se verifique um aumento significativo da frequência de perturbações da ansiedade, depressão major e suicidalidade em doentes com psoríase.

Infelizmente, a diminuição da qualidade de vida na psoríase em placas não se deve exclusivamente ao estigma social relacionado com as lesões cutâneas. A A psoríase, pelo facto de ser uma doença sistémica, envolve outros órgãos e sistemas, além da pele. Pode afetar as articulações, com dor, rigidez e edema (inchaço), que limitam os movimentos mais banais, e, por consequência, as normais atividades laborais e da vida quotidiana; está associada a doenças oculares, a doença inflamatória intestinal, a doenças do fígado, à obesidade, hipertensão arterial e diabetes e, de uma forma global, a um aumento do risco
cardio e cerebrovascular, que contribuem para uma redução da esperança
média de vida (que pode atingir os 10 anos, em doentes com psoríase grave).

Em suma, quem sofre com psoríase perde anos da sua vida, e qualidade de vida
nos seus anos.

Urge, pois, atuar precocemente no curso da doença, de forma a devolver e
preservar a qualidade de vida. Felizmente, existem vários tratamentos altamente
eficazes para as várias manifestações da doença psoriática. No entanto, é
necessário que se estabeleça o diagnóstico correto, de forma atempada, e que
seja apurada a presença das várias manifestações (e doenças associadas), de
forma a iniciar o tratamento adequado. Sabemos que muitos doentes continuam
sem diagnóstico e, mesmo naqueles já diagnosticados, o tratamento continua a
ser sub-ótimo em muitas ocasiões.

O dermatologista é o médico que o poderá ajudar, de uma forma integrada. Este
especialista conseguirá estabelecer o diagnóstico de psoríase, através das
manifestações na pele e unhas, e suspeitará de manifestações desta doença
noutros órgãos, referenciando e colaborando com especialistas noutras áreas da
Medicina, sempre que necessário. O diagnóstico correto e a avaliação do
doente como um todo são imprescindíveis para selecionar o tratamento mais
adequado, que dará resposta às necessidades concretas de cada pessoa,
minimizando os efeitos secundários e considerando as preferências e
constrangimentos do utente.

A psoríase é uma doença crónica para a qual não existe cura, mas existem muitos tratamentos eficazes, capazes de controlar a doença e devolver a qualidade de vida. Vencer a psoríase é uma maratona, e não uma corrida de velocidade. Se sofre ou suspeita sofrer de psoríase, procure e confie no seu dermatologista, e não tenha receio nem vergonha de falar sobre as limitações que esta doença lhe provoca. Partilhe a sua experiência e discuta
as suas expectativas em relação ao tratamento.

Todos nós conhecemos alguém que vive com psoríase (mesmo que não o saibamos). As lesões na pele estão à vista de todos, mas o sofrimento de quem as tem está muitas vezes escondido, envolto em vergonha. Neste Dia Mundial da Psoríase, olhe para quem o rodeia com outros olhos. A psoríase em placas é uma doença que afeta o indivíduo, a sua família, a sua comunidade e a sociedade como um todo, e, como tal, enquanto sociedade, temos o dever de tratar, de apoiar e, acima de tudo, de não estigmatizar quem vive com esta doença. Para vencer a psoríase, cada um de nós tem um papel fundamental a desempenhar: basta procurar ajuda, e ter vontade de ajudar.

 

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