A saúde íntima feminina é uma componente fundamental da saúde global da mulher, com impacto direto no bem-estar físico, emocional, sexual e reprodutivo. Apesar da sua relevância, continua a ser um tema que nem sempre recebe a atenção que merece.
Artigo da responsabilidade da Dra. Sofia Figueiredo. Ginecologista-obstetra do Hospital da Luz e da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa
A desinformação, os tabus e a insuficiente literacia em saúde contribuem, com frequência, para o atraso no diagnóstico e, consequentemente, no tratamento de diversas patologias ginecológicas.
No mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, torna-se particularmente importante reforçar a necessidade de falar abertamente sobre saúde íntima, conhecer o próprio corpo, reconhecer precocemente sinais de alerta e valorizar a prevenção como um verdadeiro investimento na qualidade de vida ao longo de todas as fases da vida.
VIGILÂNCIA GINECOLÓGICA AO LONGO DA VIDA
O corpo da mulher atravessa sucessivas fases ao longo da vida, desde a adolescência até à menopausa, marcadas por importantes modificações físicas resultantes das alterações hormonais próprias de cada etapa.
Da puberdade à pós-menopausa, a vigilância ginecológica regular é fundamental, mesmo na ausência de sintomas. As consultas de rotina são imprescindíveis para realizar ou programar os rastreios adequados, ajustados à fase da vida em que a mulher se encontra, permitindo uma abordagem preventiva e individualizada.
Na adolescência, as irregularidades do ciclo menstrual, a dor durante a menstruação e as modificações físicas próprias da puberdade são, indiscutivelmente, os motivos mais comuns para a realização de consultas de Ginecologia. Na idade adulta, o foco muda. As dúvidas relacionadas com a contraceção, a fertilidade, a gravidez e o parto tornam-se as mais frequentes. Já na peri-menopausa e na menopausa, surgem com maior frequência sintomas como secura vaginal, desconforto nas relações sexuais, incontinência urinária e prolapso genital. Cada vez mais, o empoderamento da mulher na menopausa e na pós-menopausa permite viver esta fase com mais saúde, segurança e qualidade de vida.
PRINCIPAIS PATOLOGIAS GINECOLÓGICAS
O corrimento vaginal com características anormais, nomeadamente alterações da cor ou do odor, assim como a comichão vulvar, constituem algumas das principais causas de procura de cuidados de saúde ginecológicos.
AS INFEÇÕES VAGINAIS, nomeadamente a candidíase vaginal e a vaginose bacteriana, são muito frequentes e resultam, na maioria dos casos, de um desequilíbrio da flora vaginal. Em muitas situações, a automedicação com produtos de venda livre pode aliviar os sintomas de forma imediata. No entanto, sempre que os sintomas persistirem ou recorrerem, impõe-se a realização de uma consulta médica para um diagnóstico correto e a instituição de terapêutica adequada.
VÁRIAS INFEÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS podem permanecer assintomáticas durante longos períodos de tempo. Nesse sentido, em determinados contextos clínicos, o rastreio das infeções sexualmente transmissíveis é realizado de forma sistemática em consulta de Ginecologia.
Quando não diagnosticadas e, consequentemente, não tratadas, estas infeções podem estar na origem de complicações graves, incluindo doença inflamatória pélvica, dor pélvica crónica, infertilidade e complicações na gravidez.
A ENDOMETRIOSE é uma doença inflamatória crónica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio – a camada que reveste a face interna do útero – fora da cavidade uterina. É uma das doenças ginecológicas benignas mais frequentes, afetando cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva. Do ponto de vista clínico, a endometriose está frequentemente associada a dores menstruais intensas, dor pélvica persistente, dor durante as relações sexuais e dificuldade em engravidar.
A crescente consciencialização de que “a menstruação dolorosa não é normal” tem contribuído para um diagnóstico mais precoce. Embora seja uma doença crónica, a endometriose é tratável. O diagnóstico e tratamento atempados melhoram significativamente a qualidade de vida e o prognóstico reprodutivo.
OS MIOMAS UTERINOS são os tumores benignos mais frequentes do útero. Estão presentes em cerca de 70 a 80% das mulheres ao longo da vida e são mais comuns durante a idade reprodutiva. Em aproximadamente 40% dos casos, são sintomáticos manifestando-se por menstruações abundantes, anemia, dor pélvica, sensação de peso abdominal ou dificuldades reprodutivas.
A abordagem terapêutica varia em função da intensidade dos sintomas, da idade da mulher, da localização e dimensão dos miomas e do projeto parental. Atualmente, existem múltiplas opções terapêuticas eficazes, progressivamente menos invasivas, que em muitos casos permitem a preservação do útero.
Leia o artigo e o dossier completos na edição de março 2026 (nº 369)














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