Quantas horas passou hoje a olhar para um ecrã? Entre o telemóvel, o computador e a televisão, é provável que a resposta seja: demasiadas. No final do dia, os olhos podem arder, ficar vermelhos ou dar a sensação de cansaço constante. Muitas pessoas assumem que isto é normal. Mas pode ser o sinal de um problema cada vez mais comum na vida moderna: a instabilidade da lágrima que acaba por fragilizar a superfície ocular.
Artigo da responsabilidade da Dra. Fabiana Sousa, mestre em Optometria Avançada e doutoranda na Escola de Ciências da Universidade do Minho; e Dra. Madalena Lira, professora associada do Departamento de Física da Universidade do Minho
Durante décadas, associámos saúde visual à capacidade de ver com nitidez. Se conseguimos ler no telemóvel, conduzir à noite ou reconhecer rostos à distância, assumimos que a nossa visão está bem. No entanto, o século XXI trouxe um novo desafio para a saúde ocular que muitas vezes não começa na retina, na córnea ou na necessidade de óculos: começa na lágrima.
Hoje, milhões de pessoas veem com nitidez, mas convivem diariamente com olhos cansados, irritados ou secos. Muitas desconhecem que podem estar a desenvolver uma das condições mais comuns, e frequentemente ignoradas, da vida moderna: a disfunção do filme lacrimal. Grande parte desta realidade está ligada a um hábito cada vez mais presente no nosso dia a dia: o uso prolongado de dispositivos digitais. Estima-se que mais de 30% da população adulta apresente sintomas de olho seco, com prevalência ainda maior entre utilizadores intensivos de ecrãs.
Mas afinal, o que é realmente a lágrima?
Existe a ideia simplificada de que a lágrima serve apenas para chorar ou molhar o olho. Na realidade, é um sistema biológico complexo que protege, nutre e estabiliza a superfície ocular. De uma forma simples, o filme lacrimal é composto por três camadas: a mucosa, que permite que a lágrima se fixe ao olho; a aquosa, responsável pela hidratação e proteção; e a lipídica, produzida pelas glândulas de Meibómio, que reduz a evaporação. Quando esta última camada falha, a lágrima evapora demasiado rápido e perde estabilidade.
Apesar de pouco conhecidas, as glândulas de Meibómio são essenciais para manter a qualidade da lágrima e o conforto, localizando-se nas pálpebras e produzindo o componente lipídico da lágrima. Durante muito tempo, funcionaram em equilíbrio com o comportamento visual humano, num olhar que alternava naturalmente entre longe e perto. Hoje, esse padrão mudou. Nunca passámos tanto tempo a olhar para perto: telemóveis, computadores, tablets e televisões, tanto em trabalho como em lazer.
Esta realidade altera um gesto essencial para a saúde ocular: o pestanejar. Quando estamos concentrados num ecrã, pestanejamos menos e de forma incompleta. Como estas glândulas dependem do movimento das pálpebras para libertar a sua secreção, a redução do pestanejar compromete o seu funcionamento e a qualidade da lágrima. Em condições normais, uma pessoa pestaneja cerca de 15 a 20 vezes por minuto. Estudos sugerem que o uso intensivo de ecrãs pode reduzir esse número até 60% e os nossos olhos ressentem-se. O processo instala-se lentamente e começa com sintomas que muitos consideram normais, como cansaço ocular, ardor ao final do dia, visão ligeiramente instável e necessidade de pestanejar para focar melhor.
É um paradoxo mas, curiosamente, os olhos secos podem lacrimejar – e muito. Quando a lágrima evapora rapidamente, o olho reage produzindo mais componente aquosa. No entanto, essa lágrima perde estabilidade e não consegue proteger eficazmente o olho. Ou seja, o problema não está apenas na quantidade de lágrima, mas sobretudo na sua qualidade. O olho seco “moderno” é frequentemente de natureza evaporativa e está muitas vezes associado à disfunção das glândulas de Meibómio.
No dia a dia, muitas pessoas notam que a visão melhora por momentos após pestanejar, o que é precisamente sinal de instabilidade do filme lacrimal. Essa instabilidade não afeta apenas o conforto ocular. Pode comprometer a qualidade da visão, a tolerância ao esforço visual e a concentração, com impacto no bem-estar e na qualidade de vida. Quando a superfície ocular é irregular, a nitidez oscila e o cérebro precisa de compensar continuamente, o que pode gerar fadiga visual.
Hábitos para melhorar o conforto ocular
Existem alguns hábitos que podem melhorar o conforto ocular, como pestanejar conscientemente e de forma completa (nomeadamente ao usar ecrãs), utilizar a regra 20-20-20 (a cada 20 minutos, olhar para longe durante 20 segundos) e ajustar o ambiente (evitando, por exemplo, ar condicionado direto).
Para além disso, ter higiene palpebral (que ajuda a manter as glândulas desobstruídas), aplicar compressas mornas (pode melhorar a secreção lipídica), ter equilíbrio digital (com pausas frequentes), garantir uma boa hidratação e nutrição (para além da qualidade de sono) e utilizar lágrimas artificiais (que podem melhorar o conforto ocular, sobretudo em ambientes secos ou durante uso prolongado de ecrãs).
Para quem utiliza lentes de contacto, a qualidade da lágrima torna-se ainda mais importante. A lente interage diretamente com o filme lacrimal e qualquer instabilidade pode traduzir-se em desconforto ou menor tolerância ao final do dia. Nestes casos, a avaliação da superfície ocular e da função das glândulas de Meibómio pode ser essencial para garantir conforto e segurança no uso das lentes.
No século XXI, a saúde visual já não pode ser avaliada apenas pela nitidez com que vemos. Podemos ter boa acuidade visual e, ainda assim, apresentar uma superfície ocular fragilizada. No mundo digital em que vivemos, cuidar da lágrima tornou-se parte essencial da saúde visual. Pequenos gestos diários podem fazer diferença. Porque ver bem não é só nitidez. É também conforto.
Este artigo conta com o apoio institucional da Shamir Portugal















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