A obesidade é atualmente uma verdadeira pandemia que afeta quase mil milhões de pessoas. Com o avanço do conhecimento sobre a biologia da doença, no século XXI consolidou-se como uma doença crónica, sistémica e recidivante. Felizmente, nas últimas décadas, têm surgido várias terapêuticas eficazes para controlar a doença.

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Alexandre Ferreira. Gastrenterologista no Hospital da Luz Lisboa.

 

AUMENTO ALARMANTE

Portugal é um dos países da Europa com maior prevalência de obesidade, sobretudo entre as mulheres, afetando atualmente quase 30% dos adultos – 68% se considerarmos as pessoas com excesso de peso, isto é, IMC superior a 25. Tem também sido observado um alarmante aumento da prevalência nos jovens.

A obesidade está fortemente associada a uma redução da qualidade de vida, a aumento do risco de doenças cardiovasculares – enfarte do miocárdio, AVC –, diabetes tipo 2, vários tipos de cancro – cólon e reto, fígado, pâncreas, estômago, mama, tiroide –, doenças osteoarticulares, doença hepática metabólica – e até cirrose –, apneia de sono, doenças mentais e diminuição da esperança de vida – 7 anos em doentes com obesidade severa.

CAUSAS MULTIFATORIAIS

As causas são multifatoriais, estando a obesidade associada a alterações do estilo de vida das sociedades modernas, menor atividade física, maior disponibilidade de alimentos de elevada densidade calórica e alimentos ultraprocessados, alterações de sono, saúde mental, fatores genéticos, epigenéticos e também do microbioma intestinal.

É importante reconhecer que a definição clássica de obesidade tem limitações e o risco de saúde não é determinado apenas pelo IMC superior a 30. É necessária uma avaliação individualizada que tenha em consideração a massa magra, a gordura visceral e o dano em sistemas de órgãos.

TERAPÊUTICA FARMACOLÓGICA

O tratamento deve ser oferecido a todos os doentes e os pilares centrais continuam a ser a alteração do estilo de vida e a melhoria da qualidade da dieta. Podemos contar com intervenções nutricionais personalizadas, atividade física – focada na manutenção da massa muscular – e terapia comportamental.

Os doentes com obesidade podem beneficiar de terapêutica farmacológica, nomeadamente com medicamentos inovadores como os agonistas do GLP-1 – por exemplo, semaglutido – e GIP/GLP-1 – tirzepatido. Estes fármacos transformaram o cenário, com perdas de 12 a 20% de peso em média, acompanhadas de benefícios tensionais e metabólicos. Perfis de náusea, enfartamento e alterações gastrointestinais são comuns, mas maioritariamente transitórios.

No entanto, a descontinuação costuma associar-se a recidiva do ganho ponderal, o que reforça a necessidade de planos de manutenção e, por vezes, combinação com outras modalidades.

O PAPEL DA CIRURGIA

A cirurgia bariátrica e metabólica (sleeve/bypass) está bem estabelecida e tem um papel fundamental, nomeadamente nos casos mais graves de obesidade. Tem vindo a ser usada cada vez com maior segurança e com bons resultados, não só ao nível da perda peso, mas também nos parâmetros metabólicos e na redução de eventos graves, o que permite aos doentes ganhar anos de vida.

Nos métodos minimamente invasivos realizados em ambulatório, destaque para os balões intra-gástricos, utilizados há mais de 30 anos. Estes dispositivos são temporários e permitem, com um baixo risco de eventos adversos graves, proporcionar perdas de peso de 10-20% em 12 meses, pese embora o risco de recidiva após a retirada do balão. São úteis para doentes que procuram evitar métodos mais invasivos ou não reversíveis e, sobretudo, em casos graves, como ponte para a cirurgia.

TÉCNICAS MINIMAMENTE INVASIVA

Mais recentemente, avanços nas técnicas de sutura endoscópica permitiram o desenvolvimento de procedimentos endoscópicos, através da boca, de gastroplastia minimamente invasiva, o chamado sleeve endoscópico. Estes procedimentos são reversíveis, apresentam um perfil de segurança favorável e eficácia demonstrada a médio prazo, com manutenção de perda de peso de cerca de 15% em 5 anos.

Este procedimento permite reduzir o volume do estômago e atrasar o esvaziamento após as refeições, sendo particularmente útil em doentes menos graves – IMC 27-40 – ou doentes que queiram evitar intervenções cirúrgicas mais invasivas. Pode ser usado em conjunto com a terapêutica farmacólogica e não impede a realização de uma cirurgia futura. A endoscopia pode ainda ser usada em casos particulares de doentes com reganho de peso após cirurgia de bypass gástrico através de um procedimento chamado de TORe – Transoral Outlet Reduction endoscopy.

GESTÃO A LONGO PRAZO

No século XXI, tratar a obesidade implica oferecer o tratamento certo à pessoa certa, no momento certo, usando um continuum que vai do comportamento aos fármacos, das técnicas endoscópicas à cirurgia. As intervenções endoscópicas ampliam o leque terapêutico com segurança e eficácia, ganhando protagonismo quando integradas em programas multidisciplinares e aliadas à farmacoterapia moderna.

Para os profissionais de saúde, a prioridade é construir percursos personalizados, com metas claras, equipas coordenadas e monitorização de qualidade – porque, na obesidade, a gestão a longo prazo é tão importante quanto a escolha inicial da técnica.

Saiba mais sobre saúde digestiva na Edição Especial SAÚDE E BEM-ESTAR – Conselhos Médicos nº43 – SAÚDE DIGESTIVA, integralmente redigida com o apoio científico da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.