As unhas são muito mais do que um detalhe estético. Cuidar delas é cuidar da saúde.
Artigo da responsabilidade do Dr. André Garcez de Lencastre. Dermatologista do Hospital de Cascais e Hospital da Luz – Lisboa
As unhas fazem parte do nosso dia a dia, mas raramente lhes prestamos verdadeira atenção — até que surge um problema. Para além da sua função estética, as unhas têm um papel protetor fundamental. Localizadas nas extremidades dos dedos das mãos, desempenham um papel relevante nos movimentos táteis mais delicados e finos; nos pés, contribuem para o conforto e o desempenho da marcha.
Podendo refletir alterações locais e, em alguns casos, sinais de doenças gerais, é importante conhecer os cuidados mais básicos com as unhas e as doenças que mais frequentemente as afetam – algo essencial para manter unhas saudáveis ao longo da vida.
PARA QUE SERVEM AS UNHAS?
As unhas protegem a extremidade dos dedos das mãos e dos pés, facilitam tarefas finas (como manusear pequenos objetos, por exemplo ao abotoar uma camisa) e contribuem para a sensibilidade tátil.
As unhas são formadas principalmente por queratina, a mesma proteína presente no cabelo e na camada mais superficial da pele.
O seu crescimento é contínuo: as unhas das mãos crescem, em média, cerca de 3 mm por mês, enquanto as dos pés crescem mais lentamente. Costuma dizer-se que uma unha da mão demora cerca de seis meses a renovar-se completamente, enquanto uma unha do pé pode demorar até doze meses.
ALTERAÇÕES FREQUENTES E O QUE SIGNIFICAM
Muitas alterações das unhas são benignas e transitórias, mas algumas merecem atenção médica.
- Fragilidade e unhas quebradiças
É uma das queixas mais comuns, sobretudo nas mãos. Pode resultar da exposição repetida à água, detergentes ou produtos químicos, sendo frequente em pessoas que realizam tarefas domésticas como limpeza, lavagem ou preparação de alimentos.
Costumamos dizer que “as unhas são como as tábuas de um soalho: água em excesso fá-las inchar; quando secam, encolhem e estalam”. Esta fragilidade também tende a surgir com o envelhecimento natural, não traduzindo, na maioria dos casos, doença específica.
Em situações particulares, as unhas quebradiças podem associar-se a défices nutricionais ou a doenças da tiroide.
- Alterações de cor
Unhas amareladas são frequentes. Em muitos casos, surgem nos pés e estão associadas a infeções fúngicas. No entanto, o abrandamento do crescimento das unhas – quer por envelhecimento natural, quer por alterações da circulação sanguínea – também pode contribuir para esta alteração, sobretudo nas unhas dos pés.
Unhas esbranquiçadas ou com manchas claras costumam ser benignas e, contrariamente ao que se pensa, não se devem a deficiência de cálcio. Já pigmentações escuras persistentes devem ser sempre avaliadas, especialmente se surgirem sem causa aparente ou se estiverem a aumentar.
- Estrias ou sulcos
Com o passar dos anos, as unhas podem apresentar estrias longitudinais (ao longo do seu crescimento), algo geralmente normal – tal como as “rugas” da pele. Depressões transversais, que atravessam a unha perpendicularmente, podem refletir períodos de stress físico intenso, infeções ou doenças sistémicas ocorridas semanas ou meses antes.
- Onicomicose (infeção fúngica)
A onicomicose feta mais frequentemente as unhas dos pés, tornando-as espessas, quebradiças, amareladas e, muitas vezes, difíceis de cortar. Não é apenas um problema estético: pode causar dor, dificuldade em calçar sapatos e funcionar como porta de entrada para infeções da pele, sobretudo em pessoas com diabetes ou problemas circulatórios.
- Onicodistrofia de causa biomecânica
As unhas também desenvolvem alterações semelhantes a “calos”. O uso de calçado inadequado, apertado, com saltos elevados ou com caixa de dedos estreita reflete-se diretamente na saúde das unhas. O traumatismo repetido, associado à marcha, corrida ou a determinadas práticas desportivas, pode fazer com que as unhas se tornem mais espessas, adquiram formas anormais, fiquem ocas ou se soltem parcialmente do dedo.
- Paroníquia (panarício)
É a inflamação da pele em redor da unha, frequentemente dolorosa. Pode ser aguda (mais comummente associada a bactérias) ou crónica, muitas vezes ligada à humidade persistente e a infeções fúngicas. É habitual em pessoas que mantêm as mãos frequentemente molhadas.
Na paroníquia crónica, observa-se inflamação sobretudo na pele junto à base da unha, que se apresenta inchada, mais ou menos avermelhada, e com um sinal típico: a ausência de cutícula. Esta inflamação persistente interfere com a formação normal da unha, levando muitas pessoas a pensar que o problema é exclusivamente da unha, quando, na realidade, se deve sobretudo à doença da pele que a rodeia.
Leia o artigo completo na edição de março 2026 (nº 369)














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