Cancros no feminino

O cancro é a doença que mais alarma os portugueses. Em particular, os cancros ginecológicos e o cancro da mamã – este com a respetiva incidência a aumentar de forma inquietante – estão na base das preocupações femininas ao nível da saúde.

 

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Hélder Ferreira, MD, PhD, MBA. Coordenador da Unidade de Cirurgia Minimamente Invasiva Ginecológica e Endometriose do Centro Hospitalar do Porto, Universidade do Porto

 

O cancro é a doença que mais preocupa os portugueses, segundo um estudo recente. Taxas de mortalidade elevadas e familiares com doença oncológica são as duas razões mais apontadas para justificar a inquietação com o cancro.
A aposta na prevenção e diagnóstico precoce da doença oncológica devem ser uma prioridade. Nos cancros ginecológicos e da mama, quando a doença é detetada numa fase inicial, na maior parte das vezes, o tratamento é simples e não deixa sequelas. Pelo contrário, quando o diagnóstico é tardio, torna-se comum não haver propostas curativas. Esta é a mensagem que devemos difundir, no sentido de alcançarmos uma melhor saúde feminina. A estratégia deverá focar-se na prevenção da doença e promoção da saúde.

DIFERENTES TIPOS DE CANCRO DO ÚTERO
O útero é a parte do corpo da mulher onde se desenvolve o feto, se ela estiver grávida. O órgão divide-se em colo do útero e corpo do útero. O corpo do útero possui uma fina camada de revestimento interno (o endométrio) e uma espessa camada externa (o miométrio).
O cancro uterino ocorre quando as células normais do útero se transformam em células anormais e crescem de forma descontrolada.
Existem diferentes tipos de cancro uterino, mas a maioria começa nas células revestimento interno, ou seja, no endométrio. O cancro uterino pode ocorrer em mulheres de qualquer idade, mas é muito mais comum em mulheres após a menopausa.
O sinal mais comum do cancro uterino é a hemorragia vaginal anormal, que se pode manifestar por:
 perdas de sangue entre os ciclos menstruais;
 período menstrual mais intenso do que o normal;
 qualquer perda de sangue vaginal (mesmo pequenas gotículas) na mulher após a menopausa.
A hemorragia vaginal anormal pode ser causada por outras causas não oncológicas. No entanto, deverão sempre constituir um sinal de alerta importante e motivar avaliação médica ginecológica.

CANCRO DO ENDOMÉTRIO
O cancro do endométrio é a doença maligna ginecológica mais comum em países desenvolvidos e a segunda mais comum em países em desenvolvimento.
Para fazer o diagnóstico da doença oncológica da cavidade uterina, a execução de uma histeroscopia, exame realizado pelo ginecologista, é de particular importância.
A histeroscopia, além de possibilitar a observação endoscópica direta do interior do útero, permite realizar simultaneamente uma biopsia dirigida de qualquer lesão suspeita identificada.
Comprovado o diagnóstico de cancro do endométrio, nas mulheres com tumores localizados e de baixo risco de recorrência, a cirurgia, por si só, é frequentemente curativa.
A abordagem cirúrgica minimamente invasiva (laparoscópica ou robótica), com identificação do gânglio-sentinela (técnica de fluorescência), constitui a opção atual mais recomendada para tratamento e estadiamento do cancro do endométrio, associando-se a menores taxas de complicações e internamentos mais curtos.
Mulheres com doença de risco intermédio ou alto podem beneficiar com o tratamento complementar de radioterapia (radiação que “elimina” as células cancerosas) ou/e quimioterapia (medicamentos que “eliminam” as células cancerosas ou impedem seu crescimento).

CANCRO DO COLO DO ÚTERO
O cancro do colo do útero é o quarto tipo de cancro mais frequente nas mulheres, representando 7,7% das mortes femininas por cancro em todo o mundo. Nos países em desenvolvimento, consiste no cancro ginecológico mais comum. Na Europa, são diagnosticados cerca de 58 mil novos casos todos os anos e quase metade acabam por ser fatais. O cancro do colo do útero é o terceiro mais frequente nas mulheres portuguesas com menos de 50 anos.
Quase todos os cancros do colo do útero são causados por um vírus chamado HPV (papilomavírus humano), que se transmite pelo contacto pele a pele e pela relação sexual. Qualquer mulher está em risco e o risco persiste durante toda a vida. O vírus infeta 75 a 80% das pessoas sexualmente ativas. O cancro do colo do útero manifesta-se, na grande maioria dos casos, após vários anos de infeção persistente.
Já existem vacinas que evitam a infeção pelo HPV. Esta vacina está disponível para homens e mulheres e é mais eficaz quando administrada antes de iniciar a atividade sexual. Mas também pode conferir proteção após o início da atividade sexual.
Uma outra forma de prevenção é a realização de rastreios (citologia cervico-vaginal ou teste papanicolau) para a deteção e diagnóstico precoce de lesões pré-malignas ou até mesmo da doença maligna em fase inicial, de forma a tratar a doença precocemente. É, por isso, aconselhado o exame ginecológico regular. O tratamento de células pré-cancerosas pode evitar que se transformem em cancro do colo do útero.
Alguns casos de cancro do colo do útero são tratados com cirurgia para remover o tumor, com remoção do colo do útero, corpo do útero e parte superior da vagina – chamada histerectomia radical; ou remoção total ou parcial do colo do útero, mas deixando o útero no lugar – este tipo de cirurgia é feito apenas em situações especiais. Outras opões para quadros mais avançados podem incluir quimioterapia e/ou radioterapia.

Leia o artigo completo na edição de março 2021 (nº 314)

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