Cancro do pâncreas: a crueza dos números e como inverter a tendência

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O CANCRO DO PÂNCREAS É O TUMOR MALIGNO DO SISTEMA DIGESTIVO COM PIOR PROGNÓSTICO. E JÁ CONSTITUI, ATUALMENTE, A TERCEIRA CAUSA DE MORTE POR CANCRO NA EUROPA. HÁ QUE RECONHECER E REFLETIR SOBRE ESTA REALIDADE PREOCUPANTE!

 

 

 

Artigo da responsabilidade da Dra Ana Caldeira, Presidente do Clube Português do Pâncreas, secção especializada da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

 

Na última década, assistiu-se a um aumento do número de casos de cancro do pâncreas, especialmente em países desenvolvidos. Atualmente, constitui a terceira causa de morte por cancro na Europa. Se nada for feito para inverter esta tendência, até 2020 ele irá ocupar o segundo lugar desta lista.

DESVENDANDO A CRUA ESTATÍSTICA…

O cancro do pâncreas é a terceira neoplasia do sistema digestivo mais frequente em Portugal, logo a seguir ao cancro do cólon e do estômago. Existe uma maior prevalência no sexo masculino, sendo a mortalidade global mais elevada entre os 75-79 anos de vida. Contudo, parece haver uma tendência para um número crescente de mortes em idades cada vez mais precoces.

Atualmente, a taxa média de sobrevida aos 5 anos é de 3% a 9%. A expetativa de vida no momento do diagnóstico é de apenas 4,6 meses e o número de mortes por cancro do pâncreas quase duplicou nas últimas três décadas.

Na verdade, o cancro do pâncreas tem a menor taxa de sobrevivência de todos os cancros na Europa!

Num estudo realizado recentemente em Portugal, com análise do número de mortes por cancro do pâncreas ao longo dos últimos 25 anos, concluiu-se que este número duplicou, tendo em 2017 ultrapassado as 1500 mortes por ano. No mesmo estudo, conclui-se que em Portugal existem diferenças geográficas significativas na incidência deste tipo de cancro, havendo maiores taxas de mortalidade nas regiões dos Açores e do Alentejo (e, em menor grau, da Madeira). A elevada prevalência de fatores de risco como o tabagismo ativo e excesso de peso nestas regiões pode, em parte, justificar as assimetrias registadas.

Apesar da estatística devastadora, a consciencialização pública e política sobre esta doença está muito aquém do desejável e parece ter sido negligenciada durante décadas. Os planos nacionais de cancro raramente mencionam o cancro do pâncreas e o financiamento da investigação nesta área é incrivelmente baixo para um cancro tão mortal.

É urgente o investimento nesta área! Com o aumento da investigação, podemos melhorar a nossa compreensão sobre este cancro tão complexo, identificar ferramentas corretas para alcançar um diagnóstico mais precoce e, finalmente, salvar mais vidas.

COMO SE MANIFESTA? QUE SINAIS E SINTOMAS?

O pâncreas tem uma localização muito profunda, estando situado atrás do estômago, no abdómen superior. Pesa entre 70 a 90 gramas e mede cerca de 15 a 20 cm, sendo a maior glândula do corpo humano. O cancro do pâncreas ocorre quando as células malignas se formam e se multiplicam no tecido pancreático. Existem vários tipos de tumores, contudo o adenocarcinoma é o tipo de cancro do pâncreas mais frequente (95%).

Os sintomas podem ser difíceis de identificar, dependem da sua localização e, geralmente, são vagos e inespecíficos, dificultando o reconhecimento e o diagnóstico precoce da doença. Pode manifestar-se por dor na região superior do abdómen com irradiação para as costas, que agrava após as refeições e na posição de decúbito dorsal. A cor amarelada da pele e urina turva são sintomas mais frequentes nos tumores da cabeça do pâncreas.

Outros sintomas menos frequentes são a comichão, indigestão, alteração dos hábitos intestinais, perda de peso inexplicável, depressão, perda de apetite, fenómenos de trombose vascular ou diabetes de diagnóstico recente. Estes sintomas podem estar associados a outras condições, pelo que não são específicos desta patologia.

O QUE SABEMOS SOBRE OS FATORES DE RISCO?

Estima-se que dois terços dos principais fatores de risco associados ao cancro do pâncreas sejam potencialmente modificáveis, oferecendo uma oportunidade para a prevenção da doença.

O tabagismo está relacionado com 20% de todos os cancros do pâncreas e causa um aumento de 75% em comparação com não fumadores. O risco aumenta com o número de cigarros fumados e o tempo de exposição.

A obesidade contribui para pior prognóstico e taxas de sobrevida. Os indivíduos obesos têm um risco 47% maior de cancro do pâncreas comparativamente aos indivíduos com um índice de massa corporal normal (IMC),

Embora exista um risco aumentado de cancro do pâncreas em doentes com diabetes de longa data, a diabetes de início recente está frequentemente associada a malignidade pancreática. Os indivíduos que foram diagnosticados com diabetes há menos de quatro anos têm um risco 50% maior de desenvolver cancro do pâncreas, em comparação com indivíduos que têm diabetes há mais de 5 anos.

Há evidências acumuladas demonstrando que o consumo excessivo de álcool (quatro ou mais bebidas por dia) está associado ao cancro do pâncreas, nomeadamente se associado à pancreatite crónica. Os doentes com pancreatite crónica, especialmente aqueles que têm pancreatite hereditária, têm um risco aumentado de desenvolver cancro do pâncreas. Aproximadamente 4% dos pacientes com pancreatite crónica desenvolverão este cancro.

O risco de cancro pancreático está aumentado em doentes com história familiar de alto risco (dois familiares de primeiro grau afectados ou 3 familiares com a doença, sendo pelo menos um de primeiro grau) ou com síndromes genéticas hereditárias (pancreatite hereditária, síndrome de Peutz-Jeghers). Pensa-se que até 10% dos casos de cancro do pâncreas estejam relacionados com condições genéticas.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2020 (nº 301)

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