A perturbação do espetro do autismo é uma perturbação do neurodesenvolvimento. Assim, é um espetro, o que significa que as pessoas com este diagnóstico poderão ter uma variedade grande de sintomas e de competências, com impacto no desenvolvimento.

Artigo da responsabilidade da Dr.ª Filipa Sousa. Pedopsiquiatra na Clínica Valebesteiros, Viseu.

 

A origem da perturbação do espetro do autismo (PEA) é multigénica e multifatorial, existindo uma interação entre os genes e o ambiente. A relação mãe/bebé, a educação ou o estatuto socioeconómico não têm influência na origem da PEA. Também não foi encontrada qualquer correlação entre a PEA e o uso de determinadas vacinas ou a existência de intolerâncias alimentares.

O QUE É O AUTISMO?

A PEA é uma perturbação crónica e, como tal, persiste ao longo de toda a vida da pessoa, mas as manifestações clínicas modificam com a idade.

Apesar de existir desde o nascimento, o diagnóstico só é possível quando os sintomas começam a ser mais evidentes. Em alguns casos, isso pode acontecer no período pré-escolar e, noutros casos, só em idade escolar ou mesmo na adolescência.

A altura em que o prejuízo do funcionamento se torna óbvio varia de acordo com características da própria pessoa, bem como com as características do seu meio ambiente. E o facto de poder haver uma grande variedade de sintomas pode dificultar o diagnóstico.

SINAIS DE ALERTA E SINTOMAS

Os sintomas, que mudam com o desenvolvimento e podem ser mascarados por mecanismos compensatórios, são essencialmente de dois grupos:

  • Dificuldades na comunicação social recíproca e na interação social;
  • Comportamentos, interesses ou atividades restritos e repetitivos.

Desta forma, exemplos de sinais ou sintomas que, em crianças mais pequenas, devem levantar suspeita são:

  • ausência de contacto ocular;
  • não sorrir em resposta;
  • não responder ao nome;
  • ausência de reações antecipatórias (como levantar os braços para ser pegado ao colo);
  • ausência de atenção conjunta (não olhar para onde a outra pessoa está a olhar ou a apontar e não apontar com o dedo para algum objeto para dirigir a atenção do outro);
  • não ter interesse em partilhar; ou
  • perturbação na aquisição ou desenvolvimento da fala.

Em crianças mais velhas, podem observar-se também:

  • dificuldades no jogo simbólico (não ter brincadeiras de faz-de-conta; alinhar ou organizar brinquedos, em vez de brincar com eles);
  • não ter interesse pelas outras crianças;
  • evitamento da interação social ou interação social desadequada com os pares;
  • não imitar o adulto;
  • uso idiossincrático e estereotipado de palavras ou frases;
  • défices nos comportamentos não-verbais usados para a interação social (para além da ausência de contacto ocular, uso reduzido de gestos ou expressões faciais);
  • adesão excessiva a rotinas, com dificuldades com a mudança;
  • comportamentos repetitivos ou interesses altamente restritos e anormais na intensidade ou no foco (como horários de comboios, matrículas de automóveis).

Pode existir também hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (com respostas extremas a sons ou texturas específicas ou cheirar objetos excessivamente, por exemplo) e é comum haver restrições alimentares excessivas.

Muitas crianças com PEA também apresentam défice intelectual e/ou défice da linguagem e pode haver défices motores, podendo ter uma marcha estranha (por exemplo, andar em bicos de pés) e sendo mais desajeitadas e descoordenadas do que as crianças da mesma idade.

Em crianças sem défice cognitivo e sem atraso na linguagem, pode ser apenas na adolescência, quando as tarefas em termos sociais são mais exigentes, que as dificuldades se tornam mais notórias. Nesta idade, a procura de ajuda pode acontecer por queixas depressivas ou ansiosas, motivadas por fracas competências socias e problemas de interação com os pares.

DIAGNÓSTICO

Na avaliação diagnóstica da PEA, podem ser prescritos alguns exames complementares de diagnóstico, nomeadamente para estudo etiológico, mas o diagnóstico é clínico, baseado em múltiplas fontes de informação: observação clínica, cuidadores e, quando possível, autorrelato.

A PEA é mais comum nos rapazes. Nas raparigas, os sintomas são, muitas vezes, menos óbvios, os interesses específicos mais típicos para a idade e, porque são capazes de imitar o que veem, podem ter melhor contacto ocular e melhor interação social do que os rapazes com PEA. Estes motivos levam a que possa haver subdiagnóstico de PEA nas raparigas.

ABORDAGEM TERAPÊUTICA

A abordagem terapêutica deve ser individualizada, em função da situação clínica e do contexto individual e pode incluir: terapia da fala, terapia ocupacional (integração sensorial, treino de autonomia) ou psicologia clínica (terapia comportamental, treino de competências sociais), tendo como objetivo ajudar as pessoas com PEA a usarem da melhor forma as suas competências e a conviverem melhor com as suas especificidades.

Não existe medicação para manifestações clínicas da PEA, pelo que a terapêutica farmacológica deve ser dirigida a comorbilidades ou sintomas disruptivos, como problemas graves de comportamento ou alterações de sono.