São várias as causas de vertigens, mais raramente as resultantes do medo das alturas. Todas as causas possuem, hoje em dia, uma solução, pelo que é muito recomendável descobrir qual a causa das nossas vertigens e encontrar a solução.

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Leonel Luís. Médico otorrinolaringologista do Hospital Lusíadas Amadora. Diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte

 

Faz-se muitas vezes referência a “vertigem” como significando o medo das alturas. Na realidade, vertigem é um sintoma que se caracteriza pela ilusão de movimento. As crianças descobrem muito cedo este sintoma, e dele retiram partido lúdico: rodam sobre si próprias durante algum tempo e, quando param, têm a ilusão de que continuam a rodar, desequilibram-se, podendo mesmo até cair, sem que isso signifique qualquer problema, antes motivo de alegria e divertimento. Quem tem medo das alturas sofre de uma fobia chamada de acrofobia.

ESTATÍSTICAS COMPROVAM

Pelo contrário, a vertigem e o desequilíbrio são queixas muito frequentes: 30% da população, isto é, 3 milhões de portugueses, já apresentaram – ou irão apresentar – um episódio de vertigem até aos 65 anos de idade.

Muitos destes doentes, após um primeiro episódio de vertigem, podem vir a desenvolver outras fobias ao longo das suas vidas e a consciência disto suscita neles o receio de novos episódios, com evidente interferência na sua qualidade de vida.

De facto, este fenómeno é de tal forma significativo que os leva a adotar estratégias, tais como, a de dormir apenas para um dos lados, dormir sentados e, nos casos mais extremos, evitar mesmo sair de casa por temerem uma nova crise.

Dados de vários países europeus e dos EUA mostram que as queixas de vertigem, de tontura e de desequilíbrio representam 1 a 2% de todas as consultas e de todas as urgências.

Um estudo realizado há mais de 20 anos na urgência do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, mostrou que estes números também se aplicam a Portugal. De todos os doentes que durante um ano recorreram ao Serviço de Urgência, por causas tão variadas como gripes, constipações, acidentes de viação, gastroenterites, crises hipertensivas, etc., 1% fizeram-no por vertigem ou tontura.

Este estudo de 1996 revelou também um outro dado alarmante: até no maior hospital universitário do País, mais de 80% dos doentes observados saíram do Serviço de Urgência sem qualquer diagnóstico.

SÍNDROME VERTIGINOSO

Uma síndrome é apenas um conjunto de sinais e sintomas. Assim, se temos febre, arrepios de frio e dores musculares, temos uma síndrome febril. Se o nosso médico nos diz que temos uma “síndrome febril”, não ficamos satisfeitos com esse “diagnóstico” e exigimos saber porque temos essa síndrome febril: será por gripe, pneumonia, amigdalite ou outro diagnóstico?

Se o nosso médico nos diz que temos uma “síndrome vertiginoso”, isso nada mais quer dizer do que aquilo que já sabíamos e nos levou a procurar ajuda médica. Devemos saber qual a sua causa e origem, porque muito do sucesso ou do insucesso do seu tratamento dependerá disso.

Assim, o diagnóstico claro e objetivo da vertigem, especialmente da vertigem aguda, é importante por três grandes motivos:

  1. Por poder ser a apresentação clínica de um AVC, a principal causa de morte em Portugal, pelo que o seu diagnóstico correto e atempado pode salvar vidas;
  2. Por poder ser uma vertigem desencadeada pela mudança de posição (muitas vezes, apelidada doença dos cristais), muito frequente na população. Neste caso, o seu diagnóstico precoce permite o tratamento imediato, através de manipulação da cabeça e sem recurso a qualquer medicamento;
  3. Por a recuperação completa depender intrinsecamente de um rápido diagnóstico, evitando-se, assim, sequelas definitivas.

Leia o artigo completo na edição de junho 2024 (nº 350)