As notícias recentes sobre o aumento das infeções sexualmente transmissíveis em Portugal trazem para reflexão a forma como a sexualidade tem sido abordada nos últimos anos.

Artigo da responsabilidade da Dra. Cláudia Rodrigues. Coordenadora Regional da APF – Associação para o Planeamento da Família.

 

Existem em Portugal várias associações que dão respostas céleres e gratuitas na testagem das infeções sexualmente transmissíveis. Estes rastreios usam testes rápidos, onde é possível obter um resultado imediato para o HIV, a sífilis e as hepatites B e C, com posterior encaminhamento para o Serviço Nacional de Saúde.

A Associação para o Planeamento da Família (APF) disponibiliza esta resposta em vários pontos do País, onde, para além dos testes rápidos, promove aconselhamento em saúde sexual e reprodutiva e distribui, de forma gratuita, preservativos internos e externos, disponibiliza testes de gravidez e contraceção de emergência.

FALAR ABERTAMENTE SOBRE SEXUALIDADE

A missão da APF, aquilo que nos move ao fim de 57 anos de existência, é acreditar que é preciso falar abertamente sobre sexualidade. É necessário investir numa educação sexual abrangente, para que se ganhem competências para fazer escolhas informadas e conscientes, com o objetivo de uma vivência da sexualidade plena e saudável. Por isso, não desistimos de que a Lei que regula a Educação Sexual no nosso país seja cumprida.

JOVENS E EDUCAÇÃO SEXUAL

No estudo “Jovens e Educação Sexual”, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), o Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Intervenção Social (CLISSIS) e a Associação para o Planeamento da Família, estiveram envolvidas 138 turmas dos 10º e do 12º anos. Neste universo, 58,6 % dos jovens inquiridos avaliaram como médio o seu conhecimento sobre infeções sexualmente transmissíveis; e apenas um pouco mais de metade dos que já tinham iniciado a sua vida sexual afirmou utilizar o preservativo como método contracetivo.

DESCONHECIMENTO DAS IST

Os dados deste estudo reforçam a nossa experiência quando realizamos ações em escolas. Existe uma grande preocupação sobre a gravidez e formas de evitar a gravidez, mas quando falamos de infeções sexualmente transmissíveis, estas não surgem como fonte de preocupação ou de especial cuidado.

As pessoas jovens reconhecem o VIH e o HPV (este último devido à vacinação contra o vírus do papiloma humano), mas a grande maioria desconhece outras infeções sexualmente transmissíveis, como a sífilis, a gonorreia ou mesmo a clamídia.

VISÃO SEGMENTADA

A abordagem sobre a sexualidade junto dos jovens é hoje compartimentada e realizada sobre a forma de sessões de esclarecimento dispersas, que levam a uma visão segmentada, por vezes negativa, de um tema tão importante para a sua saúde física, emocional e psicológica.

Resumir a abordagem da sexualidade à prevenção da gravidez, à transmissão de infeções sexualmente transmissíveis ou a outras patologias, é redutor.

É, sem dúvida, importante falarmos destes temas, mas devemos fazê-lo numa perspetiva muito mais abrangente, mais positiva. O objetivo não é apenas proteger as crianças e os jovens dos riscos associados à sexualidade, mas dotá-los de conhecimentos, aptidões, atitudes e valores que lhes permitam proteger a sua saúde e também o bem-estar e das pessoas com quem se relacionam.

RELAÇÕES SOCIAIS E SEXUAIS BASEADAS NO RESPEITO

Desenvolver relações sociais e sexuais baseadas no respeito, tendo noção da forma como as suas escolhas afetam o seu próprio bem-estar e o de outros, é a melhor forma de prevenir os riscos associados à sexualidade e de dar às pessoas jovens ferramentas para querer continuar a aprender e compreender cada vez melhor estas questões. E, em última análise, assegurar a proteção dos seus direitos ao longo da vida.