A ABORDAGEM BIORREGULATÓRIA FAZ USO DE UMA VISÃO SISTÉMICA E MULTIDISCIPLINAR QUE, ALÉM DE AMPLIAR AS POSSIBILIDADES DO DIAGNÓSTICO, PERMITE OLHAR PARA A DOENÇA EM PROFUNDIDADE E OTIMIZAR DA GESTÃO DA TERAPÊUTICA, DE ACORDO COM A ESPECIFICIDADE DE CADA DOENTE.

 

Artigo da responsabilidade do Dr. Juan Carlos Herrera, Professor Internacional de Medicina de Biorregulação de Sistemas (BrSM); Director Médico Raul Vieira, Grupo Farmacêutico

 

Ao considerar o processo evolutivo da Medicina, verifica-se uma profunda alteração de paradigma ao longo das últimas décadas, em que a abordagem reducionista de outrora, de foco mais linear, cartesiano e limitado, tem vindo a perder terreno para uma visão sistémica, de foco multifatorial, complexa e integrada.

Este processo evolutivo está intimamente ligado ao aparecimento e desenvolvimento das chamadas Ciências Ómicas, de que são exemplo a Genómica, a Transcriptómica, a Metabolómica ou ainda a Proteómica, as quais, ao serem associadas às ferramentas bioinformáticas, têm proporcionado um inestimável contributo para uma melhor compreensão da complexidade biológica. Assim, temos hoje a oportunidade de verificar que a complexidade do organismo não pode ser reduzida a uma lista de moléculas, ou a alterações orgânicas individuais, pelo que se torna da maior importância antes entender e abordar as redes responsáveis pela regulação destas alterações.

VISÃO FECHADA

Sem qualquer sofisma, constata-se que o método científico permitiu um avanço em várias áreas da Medicina ao longo do tempo. No entanto, é também possível imputar as limitações das ferramentas que lhe estão associadas como responsáveis por dotar a visão médica de um certo grau de miopia que desvalorizou a abordagem sistémica e, consequentemente, um vasto conjunto de terapias, algumas delas ancestrais, no qual prevalece como a visão da unidade dinâmica do ser humano.

Um exemplo claro dessa visão fechada são as doenças crónicas, onde os fatores etiológicos da doença são pouco claros, e onde os diagnósticos clínicos são confinados a diferentes especialidades, tornando mais difícil a demonstração da ligação entre algumas doenças. A consequência desta abordagem é a adoção de opções farmacológicas focadas na sintomatologia, ou na tentativa de interromper o processo evolutivo da doença.

ABORDAGEM TERAPÊUTICA DA INFLAMAÇÃO

Entretanto, alguns fatores de desregulação encontram-se já identificados numa base de dados global relativa às doenças crónicas. Um dos mais importantes fatores é “a inflamação” que, sendo muitas vezes silenciosa e mimética, é também frequentemente mal interpretada e mal abordada.

Sabe-se que existe uma base inflamatória na grande generalidade das doenças crónicas, como, por exemplo, as alergias, a asma, as doenças reumáticas, os distúrbios metabólicos e endócrinos, as doenças cardiovasculares, as doenças neurodegenerativas ou, ainda, as doenças oncológicas.

Fundamentalmente, existem dois tipos de inflamação: a aguda e a crónica. Quando a inflamação é aguda, estamos perante um processo fisiológico benéfico que deve ser modulado para ser resolvido, assim como as suas causas. Por oposição, a inflamação crónica é um processo patológico resultante da desregulação de uma inflamação aguda não resolvida.

Um exemplo frequente são os quadros de infeções bacterianas recorrentes tratadas com vários antibióticos. Na prática, o doente repete os quadros infecciosos, apesar de receber os antibióticos indicados, o que pode levar à utilização de medicamentos cada vez mais complexos. Tipicamente, e na generalidade destes casos, instala-se um quadro inflamatório subagudo, que posteriormente se torna crónico. Nestes casos, o conceito de biorregulação não é tido em consideração na seleção da abordagem terapêutica, pelo que o foco se encontra exclusivamente nas bactérias enquanto principal agente causador da doença.

Leia o artigo completo na edição de setembro 2020 (nº 308)