A 12 de Maio assinala-se o Dia Mundial da Fibromialgia, uma doença cada vez mais prevalente, mas ainda desconhecida aos olhos de tantos. Neste mesmo dia assinala-se também o Dia Internacional do Enfermeiro. A título de curiosidade, e tendo em conta várias fontes que o referem, esta sobreposição de datas é interessante, pois tudo indica que Florence Nightingale (a mãe da enfermagem), que celebrava o seu aniversário neste mesmo dia, sofria de uma doença de causa desconhecida, mas com sintomas muito semelhantes aos da fibromialgia.

Artigo da responsabilidade da Enfª Catarina Teixeira de Vasconcelos. Membro dos órgãos sociais da APJOF – Associação Portuguesa de Fibromialgia

 

O que é a Fibromialgia?

A fibromialgia é uma doença crónica de cariz complexo que se caracteriza por dor musculoesquelética generalizada, difusa, muitas vezes migratória, e por um aumento da sensibilidade a uma variedade de estímulos que podem causar dor e desconforto. Pode ter períodos de acalmia ou exacerbação, sendo que nos períodos de crise pode ser extremamente incapacitante.

Segundo os últimos dados conhecidos, estima-se que, a nível mundial, cerca de 3% da população tem fibromialgia e, cá em Portugal, a sua prevalência é de 2%. A maioria das pessoas afetadas são mulheres.

Até à data, a fibromialgia está inserida na categoria CID 11 MG30.01 na Classificação Internacional de Doenças.

Qual a causa?

Atualmente, a fibromialgia está reconhecida como doença reumática, no entanto, são cada vez mais os estudos que apontam no sentido de ser uma doença neurológica com manifestações reumáticas.

Segundo os estudos levados a cabo , verifica-se que existe uma alteração ao nível dos mecanismos de sensibilização central, ou seja, existe um aumento da sensibilidade à dor, devido a alterações dos neurotransmissores (glutamato, substância P, serotonina, dopamina) e do processamento da dor, tanto a nível do sistema nervoso periférico como do sistema nervoso central, que conduz a situações de hipersensibilidade a estímulos externos e a uma amplificação da dor.

Estudos mais recentes colocam em cima da mesa outras hipóteses, como é o caso da relação com a imunoglobulina G (IgG) e com os anticorpos anti-células gliais satélite – células que revestem o corpo celular dos neurónios sensoriais, sendo fundamentais na nocicepção (recepção, transmissão, modulação e percepção de estímulos agressivos). Nas pessoas com fibromialgia, tem-se verificado que há uma reação específica, única, comparativamente a pessoas sem a doença. No entanto, ainda há muito para estudar e descobrir sobre a real causa da fibromialgia.

Principais sintomas

A fibromialgia é considerada uma síndrome, isto porque se caracteriza por uma série de sintomas, todos eles relevantes. Alguns dos principais sintomas são:

  • Dor musculoesquelética generalizada
  • Rigidez muscular
  • Fadiga crónica
  • Perturbações no padrão do sono
  • Hipersensibilidade (cutânea, visual, auditiva)
  • Alodinia (estímulos aparentemente não dolorosos que na pessoa com fibromialgia provocam dor intensa)
  • Alterações no sistema termorregulador (intolerância ao frio/calor)
  • SII – síndrome do intestino irritável
  • Enxaquecas
  • Disfunção da ATM (articulação temporomandibular)
  • Bexiga hiperativa
  • “Fibro fog” (nevoeiro mental) e lapsos de memória
  • Depressão e ansiedade

Processo de diagnóstico

O diagnóstico de fibromialgia deve ser efetuado por um médico especialista em Reumatologia (o que não invalida que outras especialidades, como Neurologia ou Fisiatria, possam dar o seu parecer) e deve ter em conta:

  1. Sintomatologia apresentada (e duração desses sintomas igual ou superior a 3 meses)
  2. Escalas de Avaliação: Questionário de Impacto da Fibromialgia e Escala de Gravidade dos Sintomas, para quantificar a gravidade dos sintomas e sua interferência na qualidade de vida da pessoa com fibromialgia
  3. Ausência de alterações significativas nos exames laboratoriais e de imagem (para despistar outras doenças que têm um quadro sintomático muito semelhante à fibromialgia).

Só depois de efetuados estes passos é que o médico reumatologista faz a diagnóstico final de fibromialgia.

Tratamento

Quanto ao tratamento da fibromialgia, este passa por uma abordagem multidisciplinar e pela junção do tratamento farmacológico com o tratamento não-farmacológico.

Tratamento farmacológico:

  • Analgésicos
  • Relaxantes musculares
  • Anticonvulsivantes
  • Antidepressivos

Tratamento não-farmacológico:

  • Exercício físico
  • Meditação e Mindfulness
  • Yoga e Pilates
  • Psicoterapia
  • Hidroginástica/Hidroterapia
  • Terapias complementares (como a Medicina Tradicional Chinesa, Reiki, Homeopatia, …)
  • Alimentação

 O estigma da doença “invisível” e a consequente desvalorização

Infelizmente, a fibromialgia ainda é considerada uma doença “invisível”, o que é um erro, uma vez que, apesar de não haver, por enquanto, um exame ou análise laboratorial que ateste a doença, a mesma revela-se bastante incapacitante e isso é bem visível no rosto e na vida das pessoas com esta doença. Como costumo dizer tantas vezes, a fibromialgia é bastante visível nas olheiras fruto de noites mal dormidas, na fadiga constante, nos efeitos secundários da medicação, nos lapsos de memória, nos planos que têm de ser adiados, nas rotinas que têm de ser adaptadas.

É, por isso, cada vez mais importante sensibilizar e consciencializar para esta doença, incluindo alguns profissionais de saúde que ainda não encaram nem tratam a fibromialgia como a doença que, de facto, é.

São muitos os casos de pessoas com fibromialgia que já viram a sua condição desvalorizada ou mesmo desacreditada, pois, afinal, “não há nada que comprove”, o que está completamente errado e demonstra uma grande falta de empatia. Da mesma forma que não questionamos ou duvidamos quando uma pessoa nos diz que tem diabetes, por exemplo, porquê então questionar ou duvidar de uma pessoa que nos diz ter fibromialgia? Uma reflexão a fazer.

 Uma mensagem final para todas as pessoas com fibromialgia

Enquanto enfermeira e enquanto pessoa com fibromialgia há 9 anos, gostaria de deixar uma mensagem final: lembre-se sempre de que você é mais do que a sua doença.

Viver com fibromialgia não é fácil, mas é possível. Requer adaptação, reestruturação e uma grande dose de resiliência diária. Requer que aprendamos a gerir a doença, e esta aprendizagem é um processo contínuo e demorado, mas é possível. É possível viver com fibromialgia e ter qualidade de vida. Mas, para isso acontecer, é necessário que haja um acompanhamento terapêutico eficaz, uma rede de apoio empática e, acima de tudo, uma mudança de mentalidade e de perspectiva. Nada voltará a ser como antes do diagnóstico, é um facto. Mas podemos (e devemos) encarar esta mudança como um processo evolutivo e recomeçar a nossa vida, nunca esquecendo de que a prioridade é e deve sempre ser só uma: a nossa saúde e bem-estar.

E lembre-se também de que não está sozinha ou sozinho neste processo. Procure ajuda junto de grupos de apoio, associações e de profissionais sensíveis e despertos para esta doença que lhe possam dar a mão e fazer o caminho consigo.