A esquizofrenia é uma patologia mental complexa, crónica e grave, que afeta cerca de 24 milhões de pessoas no mundo e cerca de 48 mil doentes em Portugal. Tem um leque polimorfo de sintomatologia que inclui sintomas positivos, como as alucinações (mais frequentemente auditivas) e delírios (convicções absolutas em factos não verdadeiros); sintomas negativos como a diminuição da vontade e da iniciativa; sintomas cognitivos, com dificuldades em concentrar-se e em conseguir rendimento cognitivo.

Artigo da responsabilidade da Dra. Dulce Maia. Médica psiquiatra. Diretora do Serviço de Psiquiatria, Unidade Local de Saúde Trás-os-Montes e Alto Douro. Docente convidada, UTAD e Universidade do Porto

 

No século XIX, nomes importantes da história da Psiquiatria deram-lhe a designação de Dementia praecox porque levava jovens a ter níveis de funcionalidade, que, à data (ainda sem qualquer tratamento adequado) se assemelhavam às de idosos demenciados. Como em muitas outras doenças crónicas, muitas vezes existem sintomas afetivos, como a tristeza e mesmo a depressão, o que pode fazer com que cerca de 10% dos pacientes se suicidem.

A esquizofrenia é uma doença multifatorial, onde diferentes fatores têm influência variável. Destaque para substâncias que funcionam como trigger para o despoletar da sintomatologia: cannabis e alucinogénios aumentam a transição para esquizofrenia, com todas as consequências que daí advêm.

Muito preocupantes são também os dados que referem que em Portugal perto de 8 mil doentes não são acompanhados regularmente. Um dos mais importantes aspetos de agravamento do prognóstico é a duração de doença não tratada, ou seja, quanto mais tempo decorrer sem tratamento, mais difícil será a recuperação e pior o prognóstico.

Sobre o tratamento, o primeiro fármaco antipsicótico surgiu em 1940-50 e foi um marco histórico. Felizmente, desde então, surgiram muitos outros que têm traçado um processo evolutivo até aos mais recentes, com muito menos efeitos indesejáveis, nomeadamente a nível sexual e metabólico.

As novas opções terapêuticas têm evidente benefício na prevenção das recaídas, na redução do número e da duração dos reinternamentos e globalmente são mais seguras.

As recaídas são mais prováveis quando os medicamentos são tomados irregularmente e aqui os fármacos injetáveis de longa duração têm um papel muito relevante, ao garantir o cumprimento do plano prescrito. Falamos de fármacos antipsicóticos, de administração intramuscular, com periodicidade quinzenal, mensal, trimestral e, mais recentemente, até semestral, que também facilitam muito a vida dos cuidadores. Sabemos que a toma diária de medicação oral é um motivo de rápida descontinuação e de recaída.

Em Portugal, estima-se um impacto económico direto de 96 milhões de euros/ano e indireto de 340 milhões de euros: 80% dos doentes não têm emprego e, destes, 70% dependem financeiramente de familiares. Quanto menor a adesão à terapêutica, menor a capacidade de recuperação e maiores estes custos.

Existe o mito para a população geral, mas infelizmente também presente ainda em alguns profissionais de saúde, de que expressão “doente mental” descreve pessoas violentas e descontroladas; de que as pessoas com esquizofrenia são agressivas, imprevisíveis e perigosas, numa representação errada que só estimula a psicofobia e a estigmatização. Na verdade, a maioria destas pessoas não só não são violentas ou perigosas, como o que se passa é o contrário: vários estudos sugerem que têm maior risco de serem vitimas de violência ou abuso por parte de terceiros.

Compete ao serviço local de saúde mental o trabalho de continuidade de cuidados prestados a cada paciente. Neste momento, o tratamento pode ser iniciado no serviço de urgência, na consulta externa ou no internamento. O objetivo é que, tanto quanto possível, o tratamento seja implementado e mantido com o paciente na comunidade e, para isso, as Equipas de Saúde Mental Comunitária têm tido uma contribuição muito relevante.

Este processo de desinstitucionalização progressiva levanta aos doentes, aos familiares e aos profissionais várias dificuldades, porque os recursos de reabilitação e inclusão social são muito escassos e, quando somados com um imaginário rico em preconceitos, tornam-se ainda mais reduzidos.

As doenças mentais devem ser encaradas do mesmo modo que as outras doenças: requerem cuidados e tratamentos, que quando prestados, fazem esperar um nível de recuperação que permita o reingresso na vida familiar e social ativa, permitindo cursos tão normais e produtivos quanto possível.

O processo de recovery centra-se em ajudar os pacientes a viver na sua família, na sua comunidade, com as limitações induzidas pela doença. A sociedade em geral tem ainda muito para evoluir, aumentando realmente e na prática, a sua contribuição para a integração plena destes pacientes. Nunca é demais lembrar que a saúde e a doença mental são assuntos que dizem respeito a todos.