Esclerose múltipla. É uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e é progressivamente incapacitante. Não existe cura, mas temos bons tratamentos que conseguem, até certo ponto, controlar a doença.

Artigo da responsabilidade do Dr. Jorge Ascenção. Psicólogo Clínico e da Saúde.

 

Um dia destes “deixaram-lhe” um presente… Você não sabe bem como o recebeu… não sabe quem lhe deixou este “presente”… e, na prática, inicialmente, nem sabia que já o tinha “recebido”…

Notou apenas mais cansaço que o habitual, ou, noutras situações, parecia que as pernas não tinham a mesma força… falhava o chão… até tentou usar mais o elevador e até lhe disseram que isso era falta de exercício ou falta de descanso… “Entendam-se!” – chegou você a pensar…

Experimentou fazer mais desporto, menos gorduras na comida e cortou no açúcar mas, do nada, eis que uns formigueiros, desequilíbrios, visão dupla ou turva – “eu sei bem lá o quê…” – e outros sintomas, o puseram numa espécie de “dúvida” permanente… “Parece que não sinto o meu corpo como dantes…”

Os sintomas iam e vinham… quando já se estava a esquecer deles, lá voltavam a dar sinal…

O médico de família já lhe disse que estava tudo bem… “Hoje em dia muitos de nós sofrem com o excesso do stress no trabalho e em casa… O sistema nervoso é um dos primeiros a dar sinal… Tire uns dias e vai ver que fica bem…”

Mas não… aliás, hoje, pela primeira vez, teve a certeza que a perna direita não está igual… “Lá estás tu com as tuas ideias… não achas que estás a ficar hipocondríaco? O médico já te disse que estava tudo bem… Tira isso da cabeça!”

Às vezes até duvida se realmente se preocupam consigo… outras vezes duvida de si mesmo… “Será que isto é mesmo só da minha cabeça?” Afinal o que se passa? Que raio de “presente” é esse, que ninguém vê, e só você é que sente…

Você sabe que “ele” está lá, por mais que lhe digam que está tudo bem. Você não inventou esses sintomas e esse cansaço que aparece do nada… ou inventou? “Será que estou mesmo a ficar preguiçoso?” “Deixei de ter vontade de fazer coisas e sair, ou fazer desporto.” “Nem sei se vou fazer férias este ano… Para passar os dias fechado em casa com medo, não vale a pena sair!”

Mas hoje teve a certeza… o formigueiro é cada vez mais intenso e a perna direita não mexe como a esquerda… e já é tempo a mais a sofrer com a dúvida. O médico até pode olhar para si com aquela cara de – “lá vem ele com os problemas do costume… O que é que será hoje?” – mas hoje não saio de lá sem saber o que se passa…

Novas análises… novos exames… nova consulta na próxima semana. Finalmente vou saber o que tenho… que “presente” é este afinal… mas quero mesmo saber? “O que é isso de punção lombar?”

Abrir este “presente” pode ser terrível… Cirurgias? Cancro? A internet tem uns sites terríveis e o Facebook fala muito mal destes sintomas… pode ser mesmo muita coisa! Se tenho os dias contados será que quero saber quantos vou contar? E os planos? E a família?

A consulta é só para a semana? Não pode ser amanhã?

Não posso desmarcar e não querer saber? Ficar assim? “Tenho dias melhores e outros piores… ultimamente é que é insuportável… Mas às vezes até nem se nota tanto…”

Como garantir que tomamos a opção certa? Abrir ou não abrir o “presente”?

Pior do que tomar a decisão errada é não tomar decisão nenhuma… ficar no sítio. Onde já está. Procrastinar. Ou seja, “empurrar com a barriga”. Deixar os sintomas e a imaginação levarem o seu caminho. O stress do desconhecido e os Adamastores da adrenalina livres na sua corrente sanguínea…

Ter diariamente uma catástrofe emocional a ser descarregada sem medidas no seu sistema nervoso central e que atinge os familiares e amigos em volta… Um terramoto que julga só seu mas, se olhar em volta, todos são apanhados nas ondas de choque… quer você queira ou não…

Fugir? É uma hipótese… mas como é que se foge de nós mesmos? Não vai levar os espasmos e a fadiga e tudo o resto consigo? Será que por detrás desse “Cabo das Tormentas” não encontra uma “Boa Esperança”? Um caminho a seguir? Uma solução…

“Lamento… Você tem uma doença crónica. É uma esclerose múltipla. É uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e é progressivamente incapacitante. Não existe cura, mas temos bons tratamentos que conseguem, até certo ponto, controlar a doença.”

E, de repente, a sua visão do mundo e da Vida encolhem… no suspiro de um diagnóstico que o iliba do “atestado de hipocondríaco”, mas que o sufoca no conhecimento de que está realmente doente…

Já não se sente cair numa escuridão de desconhecimento, mas continua sem sentir o chão debaixo dos pés… não sente propósito, nem sentido, nem vontade de continuar… não conseguiu perceber mais nada a seguir a “não existe cura…”

“Agora sou um doente… Afinal não devia ter ido ao médico. Sofria, mas não sabia porquê… agora sofro sem saber para quê… A doença não vai passar e não…”

“Não mata… Esse medo posso deixar para o lado…” Mas o desespero, a impotência face a esse “Presente” que aparentemente ninguém lhe passou, não o apanhou em lado nenhum. Afinal ele só decidiu aparecer na sua Vida, sem justificação aparente…

Esta ameaça ao Destino que tinha planeado, este choque de frente com a realidade que pensava ser apenas “dos outros…” E nem sequer lhe dão o que culpar, ou quem culpar…

O caráter crónico da doença, o prognóstico imprevisível, a sua própria experiência e conhecimentos sobre doenças crónicas ou mesmo sobre a esclerose múltipla, bem como as relações que estabeleceu antes e agora com os médicos e os técnicos de Saúde, põem à prova, numa tempestade de emoções, as suas defesas.

Não tem bem a certeza de para onde vai, nem sabe bem como está a ir… Se vai bem, ou se vai mal… – “Vou indo…” – Mas, na prática, já não está parado… Já não caminha “às escuras” por esses sintomas estranhos e aquele “medo de não sei bem o quê…”

A revolta do “porquê eu” passou a ter uma direção. Um caminho difícil de seguir, mas em que passou a saber que não está só. Caminham consigo médicos, técnicos, outras pessoas com o mesmo “presente” que conheceu entretanto, e que não o deixam sentir tão incompreendido. “Afinal são tantas as pessoas com esta doença e com sintomas parecidos com os meus.”