A doença renal crónica é uma doença silenciosa, mas as suas consequências não o são. À medida que a função renal diminui, aumenta o risco de complicações graves e o impacto na qualidade de vida.

Artigo da responsabilidade do Dr. Artur Mendes. Diretor Médico Nacional da DaVita Portugal

 

Os rins trabalham em silêncio todos os dias. Filtram o sangue, eliminam toxinas e excesso de líquidos, ajudam a controlar a tensão arterial, regulam o equilíbrio dos sais minerais, contribuem para a produção de glóbulos vermelhos e mantêm o equilíbrio global do organismo. O problema é que, quando começam a falhar, raramente dão sinais de alarme. É assim que surge a doença renal crónica (DRC): de forma discreta, lenta e muitas vezes invisível.

UMA QUESTÃO DE SAÚDE GLOBAL

Atualmente, pensa-se que cerca de 1 em cada 10 adultos tenha algum grau de doença renal crónica. Em Portugal, este número é particularmente preocupante, refletindo o envelhecimento da população e a elevada prevalência de doenças como a diabetes, a hipertensão arterial e a obesidade.

À medida que a doença renal progride, o peso da diabetes torna-se ainda mais evidente: cerca de 1 em cada 3 a 4 doentes com doença renal crónica avançada tem diabetes, uma associação que ajuda a explicar porque a prevenção e o controlo desta doença é tema central quando falamos de saúde renal.

A doença renal crónica é uma doença silenciosa, mas as suas consequências não o são. À medida que a função renal diminui, aumenta o risco de complicações graves e o impacto na qualidade de vida. Além disso, a doença renal crónica está fortemente associada a outras patologias, sobretudo às doenças cardiovasculares. Pessoas com DRC têm maior risco de enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca, mesmo em fases iniciais da doença. Falar de rins é, por isso, falar de saúde global.

PREVENIR COMEÇA NAS ESCOLHAS DO DIA A DIA

A boa notícia é que, em muitos casos, a progressão da doença renal crónica pode ser prevenida ou significativamente atrasada. E tudo começa com escolhas simples do dia a dia. Uma alimentação equilibrada, com menor consumo de sal e açúcar, a prática regular de atividade física, a manutenção de um peso saudável e a cessação tabágica são medidas fundamentais para proteger os rins.

A estes hábitos junta-se o controlo rigoroso da tensão arterial e do açúcar no sangue, dois dos principais fatores associados ao agravamento da função renal e ao aumento do risco cardiovascular.

Grande parte deste risco é, de facto, evitável. O diagnóstico atempado e um acompanhamento adequado permitem proteger os rins, reduzir complicações cardiovasculares e preservar a qualidade de vida ao longo do tempo.

Nos últimos anos, surgiram também novos medicamentos que ajudam no controlo do peso e do açúcar no sangue e que demonstraram atrasar a progressão da doença renal crónica, reduzindo simultaneamente o risco cardiovascular. Estes avanços representam uma oportunidade importante para muitos doentes, mas devem ser sempre avaliados de forma individualizada. Por isso, é fundamental que cada pessoa converse com o seu médico, se informe de forma adequada e compreenda quais as opções terapêuticas mais indicadas para a sua situação específica.

SABER MAIS PARA CUIDAR MELHOR

A literacia em saúde, ou seja, saber mais sobre o nosso próprio corpo e sobre as doenças mais comuns, é uma das armas mais eficazes no combate à doença renal crónica. Muitas pessoas desconhecem que os rins podem adoecer durante anos sem provocar dor ou sintomas evidentes.

Reconhecer os principais fatores de risco e perceber a importância de análises simples, pode fazer toda a diferença. Na maioria dos casos, basta uma análise ao sangue para avaliar a função dos rins (creatinina) e uma análise à urina para detetar perda de proteínas. Para a população em geral, estes exames devem ser realizados pelo menos uma vez por ano, no âmbito das análises de rotina. Em pessoas com maior risco, como quem tem diabetes, tensão arterial elevada, excesso de peso ou antecedentes familiares, estes controlos podem precisar de ser feitos com maior regularidade, de acordo com a orientação do médico.

O diagnóstico atempado permite agir mais cedo, fazer pequenas mudanças no estilo de vida, ajustar tratamentos e evitar que a doença avance para fases mais graves. Esperar que apareçam sintomas é esperar demasiado e perder uma oportunidade valiosa de proteger os rins e a saúde em geral.

Leia o artigo completo na edição de março 2026 (nº 369)