As doenças dos outros… Dos velhinhos e dos mais fracos, dos stressados e dos que tiveram azar, dos que são esquisitos e dos que se isolam, dos que andam sempre cansados e dos que não têm força de vontade que chegue, dos que nunca param e dos que não cuidam da saúde…

Apesar da doença inflamatória intestinal (DII), hoje em dia, contar mundialmente com mais de 10 milhões de doentes e, em Portugal, encontrarmos mais de 25.000 pessoas com doença de Crohn ou com colite ulcerosa, continuamos a achá-las “dos outros”.

Artigo da responsabilidade do Dr. Jorge Ascenção. Psicólogo Clínico e da Saúde. Membro da Comissão Científica da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino

 

 

Os outros que estão sempre com dores de barriga, que demoram quando vão à casa de banho, que nunca sabem o que comer ou que parecem intolerantes a tudo e mais alguma coisa que está na ementa. Ou pior! Nem aparecem porque estão sempre doentes…

Do nosso lado, essas doenças não têm lugar. Nós não estamos incluídos nesses grupos “diferentes” ou, pelo menos, assim pensamos.

Achamos que, procurando bem aquilo que causa uma destas doenças, só vamos encontrar diferenças, quando, afinal, partilhamos tanto de semelhante.

Porque, afinal, não se trata de uma questão de força ou fraqueza, mas de um sistema imunitário, tal como o nosso, mas que nessas pessoas ataca o sistema digestivo, bem como os órgãos adjacentes na doença de Crohn, e o intestino grosso, no caso da colite ulcerosa.

Afinal, não é a falta de força de vontade, mas a genética – aquela coisa “hereditária” – que parece influenciar quem tem maior probabilidade de desenvolver uma doença inflamatória intestinal, não sendo, contudo, determinante. Ou seja, podemos ou não ter parentes diretos com estas ou outras doenças autoimunes, mas também nos pode “calhar” sermos os primeiros da família com um destes diagnósticos.

Não é assim estranho que, em inúmeras ocasiões, apesar de falarmos de doenças de origem ainda desconhecida, o impacto, a gravidade e a visibilidade das mesmas continuam associadas a estigma social e a sentimento de culpa por parte de quem as tem.

Exato, este estigma social, que aqui estamos a discutir e que, frequentemente, a pessoa com a doença reproduz em si mesma.

Serão apenas as pessoas mais ansiosas, nervosas, irritadiças e intolerantes a receber este tipo de diagnóstico? É que, hoje em dia, olhando em volta, parece então que teremos todos uma DII, tal é o nível geral de stress negativo que se observa na população em geral.

Níveis de poluição, alterações alimentares e nutrição em geral, privação ou alterações nos ciclos de sono, serão outros fatores que, de uma forma ou outra, mais cedo ou mais tarde, influenciarão a nossa saúde. Mas a quem saiu o “presente” da DII, por maior sensibilidade, parece receber o maior impacto na sua qualidade de vida.

Por estranho que vos pareça, é certo que, para alguns, o diagnóstico de uma DII surge como alívio de saber o que se tem. De saber de onde vêm, afinal, aquelas dores abdominais, aqueles mucos e diarreias, o sangue nas fezes ou o simples, mas avassalador, cansaço.

Mas para muitos, esse momento é de destruição, como se de um terramoto se tratasse, que devasta, num primeiro momento, do centro para fora, de mim para os outros, tudo o quanto se construiu.

Nascemos para a saúde. Não para a doença. Muito menos para passarmos a doentes crónicos. E, de repente, médicos, enfermeiros e técnicos mais competentes estão a entregar-nos o manual de como vai ser o resto da nossa vida. Quer tenhamos 15, 20, 30, 40 ou 60 anos vividos.

Acontece que, quando uma mudança é rápida e/ou intensa demais, física e/ou mentalmente, o resultado tende a ser traumatizante. A negação que muitas vezes ouvimos falar, aqui, é o mecanismo mental que nos permite, perante a mudança catastrófica da nossa realidade, gradual e progressivamente, aprender e sentir, à nossa velocidade, à nossa maneira, a nova versão que um dia viremos a ser.

E cada um, em cada idade e em cada identidade, vai precisar desse tempo para processar esta mudança. Esta imposição. Esta necessidade de acrescentar aos planos que tínhamos, e que estávamos a viver até então, uma nova imagem de nós mesmos.

Nesta altura, para além de sintomas de stress, ansiedade e depressão, acrescenta-se toda uma série de consequências psicológicas negativas graves, incluindo agitação e confusão emocional, que comprometem, entre outras, a autoestima de quem as vive.

Sem caprichos ou esquisitices, desde aquele diagnóstico, acordar, vestir, sair, estudar, trabalhar, estar e simplesmente ser-se quem se era deixa de ser garantia, para passar a uma sensação geral de perda de identidade. De falta de pertença a si mesmo/a.

Segue-se em frente, é certo, mas meio aéreos, meio sem chão, agarrados ao estômago, à casa de banho ou aos joelhos, em que a importância do “resto” já não será a mesma, de tal modo que estamos vazios de quem somos para os outros. Do que nos compete, do que esperam de nós, do que sobra depois daquele desmoronamento da nossa identidade social.

Somos, felizmente, na realidade, “muita coisa”, para nos fecharmos numa identidade apenas…

Somos as nossas características pessoais, somos os nossos – vários – papéis sociais, pertencemos a este e aquele grupo de pessoas. Revemo-nos, e vemo-nos, na soma de todas essas imagens e autoconceitos, em que nos imaginamos aos olhos dos outros.

E agora, imaginarmo-nos capazes, possíveis, os mesmos, porque o somos.

Mas importa acrescentar a esta identidade global de quem fomos, e quem somos, um novo autoconceito de doença, e de pessoa com a doença. Acrescentando à torre da nossa vida, aos andares da nossa história, um piso inteiro dedicado a esta rasteira que ela nos pregou.

Porque somos, afinal, parte do grupo, parte dos outros, e eles também parte de nós.

E com a mesma certeza que existe uma doença para cuidar, também lá está toda uma equipa, uma família e uma pessoa que é mais do que a sua própria doença.

Conte com a APDI – Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino, Colite Ulcerosa, Doença de Crohn para o que necessitar.

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