Na última década, surgiram novas opções terapêuticas para a doença de Parkinson e consolidou-se o uso de outras. Vive-se, por isso, um período de nova esperança no tratamento desta doença neurodegenerativa.

 

Artigo da responsabilidade do Prof. Miguel Coelho, Presidente da Sociedade Portuguesa das Doenças do Movimento

 

A doença de Parkinson (DP) é a segunda doença neurodegenerativa mais frequente, depois da doença de Alzheimer. Num estudo recente realizado em Portugal, estimou-se que existam cerca de 18.000 pessoas com doença de Parkinson no País.

O envelhecimento é o maior fator de risco para desenvolver esta doença neurodegenerativa. Assim, prevê-se um aumento substancial do número de doentes com doença de Parkinson a nível mundial, pelo progressivo envelhecimento da população e aumento da esperança de vida.

SINTOMAS TÍPICOS

A doença de Parkinson é uma doença progressiva causada pela falta de produção de dopamina no cérebro. O seu sintoma principal é a lentidão de movimentos, manifestado por uma facies pouco expressiva, voz arrastada, caligrafia pequena, dificuldade em executar movimentos finos como abotoar, dificuldade em girar na cama ou dificuldade em caminhar, fazendo-o, tipicamente, com passos pequenos. O tremor dos membros, que normalmente ocorre em posições de repouso, afetando só um lado do corpo ou os dois lados de forma assimétrica, é também muito frequente, embora não obrigatório. Os membros encontram-se rígidos, com dificuldade em dobrar ou esticar.

Esta patologia traz grande incapacidade para os doentes e seus cuidadores. No entanto, a medicação disponível para tratar os sintomas melhora muito as queixas dos doentes e a sua qualidade de vida. O fármaco mais potente para tratar a doença de Parkinson é a levodopa, que pretende suprimir a falta de dopamina no cérebro. É recomendado que os doentes com DP sejam acompanhados em consultas de doenças do movimento, que existem em diversos hospitais, nas várias regiões de Portugal.

MAIOR COMPREENSÃO DA DOENÇA

Na última década, houve importantes desenvolvimentos no entendimento e tratamento da doença de Parkinson. Percebeu-se que esta também se manifesta através de sintomas ditos não-motores, como, por exemplo, depressão, ansiedade, alteração do sono, demência, fadiga ou obstipação. Estes sintomas, muitas vezes, causam mais incómodo aos doentes e aos cuidadores do que os sintomas clássicos, como o tremor, sobretudo nas fases mais avançadas da doença. Muitos estudos mostram, por exemplo, que a depressão é dos sintomas que mais afeta a qualidade de vida dos doentes com esta patologia e que, por isso, tratá-la é muito importante.

O estudo destes sintomas permitiu observar que as alterações microscópicas da doença de Parkinson ocorrem também fora do cérebro, como, por exemplo, no intestino. Ficou claro que muitos destes sintomas começam anos antes dos sintomas motores clássicos, o que é muito relevante para um dia se testar novos medicamentos que potencialmente possam atrasar o início dos sintomas motores clássicos.

AVANÇOS CIENTÍFICOS

Registou-se, também, um grande desenvolvimento na identificação de mutações genéticas e de fatores de risco genéticos para o desenvolvimento da doença de Parkinson. Cerca de 5 a10% dos casos têm causa genética. Investigadores portugueses deram um contributo muito importante para a identificação de algumas destas mutações e para o estudo das famílias com essas mutações. Percebeu-se melhor como diferentes alterações genéticas podem dar queixas particulares na doença de Parkinson. A identificação destas alterações genéticas ajudou a compreender melhor os mecanismos que causam a DP e a desenvolver potenciais tratamentos que usam novos mecanismos de ação.

Uma vez mais, a identificação de pessoas que possam estar em risco de desenvolver esta doença, por serem familiares de doentes com doença de Parkinson com mutação genética, pode ser relevante para o estudo de novos medicamentos que potencialmente possam atrasar o início dos sintomas da patologia.

Os avanços no estudo de uma proteína, chamada alfa-sinucleína, também foi fundamental para se entender como surge a doença de Parkinson. Os investigadores portugueses têm tido um papel relevante nesta investigação do funcionamento desta proteína.

Técnicas de diagnóstico complementar, como a ressonância magnética e o estudo por ecografia cerebral, também registaram importantes avanços e conseguiram identificar alterações próprias desta doença degenerativa, o que ajuda ao seu diagnóstico. O desenvolvimento das novas técnicas de ressonância magnética teve também um contributo muito importante de investigadores nacionais.

NOVAS OPÇÕES TERAPÊUTICAS

Embora a levodopa seja o fármaco mais potente para tratar a doença de Parkinson, o seu uso leva, no entanto, ao surgimento de complicações motoras numa grande parte dos doentes, ao fim de vários anos. Estas complicações caracterizam-se por flutuações motoras e movimentos involuntários ou discinésias. Ambas causam grande incapacidade aos doentes e têm sido sempre um alvo primordial das novas intervenções terapêuticas. As flutuações motoras ocorrem por perda do efeito da levodopa algumas horas após a sua toma (em geral 2 a 4 horas), causando o ressurgimento dos sintomas de tremor, lentidão ou rigidez. Os doentes oscilam, assim, entre dois períodos, um dito ON e outro dito OFF. As discinésias são movimentos involuntários que se assemelham a uma dança e que afetam os membros, o tronco e, por vezes, a face.

Na última década, surgiram novas opções terapêuticas e consolidou-se e generalizou-se o uso de outras, como a cirurgia funcional, a administração intestinal de levodopa ou sub-cutânea de apomorfina, para o controlo das complicações motoras.

Vive-se, atualmente, um período de nova esperança no tratamento da doença de Parkinson, visto estar a iniciar-se a realização de ensaios clínicos com novos medicamentos que usam mecanismos de ação diferentes dos até então testados e que são dirigidos a alterações ocorridas nesta doença que foram melhor conhecidas na última década.

Por último, nos últimos anos, consolidou-se a ideia de que o exercício físico e a fisioterapia são intervenções muito relevantes para o tratamento da doença de Parkinson, e que os doentes devem idealmente ser tratados por uma equipa multidisciplinar.

Artigo publicado na edição nº 294 (maio 2019)