A apneia obstrutiva do sono não é apenas uma doença, é uma síndrome, ou seja, é uma condição patológica que engloba um conjunto de sintomas e sinais que se expressam de forma variada, abrangendo múltiplos órgãos e sistemas e que afeta uma parte importante da população portuguesa e mundial. Várias perguntas se impõem, de forma a entender corretamente o seu impacto.

Artigo da responsabilidade do Prof. António Bugalho. Pneumologista, Hospital CUF Tejo, Hospital CUF Descobertas. Professor NOVA Medical School. Coordenador do livro ‘Sono para Medicina Geral e Familiar’, LIDEL

 

EM QUE CONSISTE E COMO SURGE A APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO?

Os mecanismos são complexos e os fatores de risco variam entre pessoas. Os estudos científicos são consensuais na identificação do colapso cíclico da via aérea superior durante o sono (o fluxo de ar cessa completamente ou sofre uma redução significativa), muitas vezes ao nível da faringe e laringe, podendo ocorrer devido a caraterísticas anatómicas, fatores genéticos, alterações mecânicas, distúrbios da função neuromuscular ou do controlo da ventilação, entre outras.

O cérebro reconhece essa diminuição do fluxo de ar e restaura-o através de um pequeno despertar, que muitas vezes é impercetível para o próprio. Estes eventos verificam-se de forma repetida, gerando os sintomas diurnos e noturnos, bem como as potenciais complicações.

ESTA SÍNDROME É FREQUENTE EM PORTUGAL?

Sim, é uma das doenças do sono mais prevalentes e tem vindo a aumentar o número de pessoas que dela padecem, em paralelo com a epidemia da obesidade. No nosso país, não existem estudos fidedignos que avancem números concretos. Estima-se que possa afetar cerca de 4 a 9% da população, sendo cerca de duas vezes mais frequente nos homens do que nas mulheres. A probabilidade de ter a síndrome aumenta com a idade e com a presença de obesidade.

QUAIS OS PRINCIPAIS SINTOMAS E SINAIS?

O ressonar, sonolência diurna excessiva e o relato de paragens respiratórias presenciadas pelo companheiro são os sinais e sintomas que conduzem habitualmente a uma primeira avaliação médica. Podem existir outros: cansaço, despertares com sensação de engasgamento, insónia, urinar frequentemente durante a noite, dores de cabeça ao acordar, alterações da memória ou da capacidade de concentração diurna e diminuição da libido são também reportados.

COMO SE FAZ O DIAGNÓSTICO?

A realização de um estudo do sono, designado de polissonografia, é mandatória para se alcançar um correto diagnóstico. Este exame monitoriza a pessoa enquanto dorme, podendo ser realizado no domicílio ou em ambiente de laboratório do sono, existindo critérios específicos de seleção. Para além de fornecer uma resposta acerca da presença/ausência de paragens respiratórias durante o sono, bem como de outros parâmetros, permite estabelecer a gravidade da situação.

QUE CONSEQUÊNCIAS TEM A APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO?

Em regra, as paragens respiratórias associam-se a episódios transitórios de diminuição do oxigénio no sangue e crê-se que, quanto maior for o número e gravidade destes eventos, maior é a probabilidade de repercussão nos diferentes órgãos e sistemas.

Existe uma relação estreita e bem documentada entre a apneia do sono e a doença cardiovascular (hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, fibrilhação auricular e doença coronária, como o , a doença cerebrovascular (acidente vascular cerebral) e a doença metabólica (obesidade, diabetes). Alguns trabalhos evidenciam, também, associação com patologia neurodegenerativa (Alzheimer, Parkinson).

Para além das consequências a nível físico, é importante mencionar outras eventuais e menos reportadas implicações, que podem acontecer a nível psicológico (ansiedade, depressão), social (isolamento), laboral (diminuição da produtividade, aumento do risco de acidentes) e jurídico (por exemplo, inibição de condução perante apneia com sonolência excessiva durante o dia).

Leia o artigo completo na edição de maio  2023 (nº 338)