A Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) estima que os miomas uterinos apresentem uma prevalência de 20 a 40% nas mulheres em idade reprodutiva e de 70 a 80% aos 50 anos. Maior consciencialização sobre esta patologia e mais acesso aos cuidados de saúde tem facilitado a deteção precoce da doença. Contudo, o adiamento do desejo reprodutivo da mulher implica maiores desafios nos tratamentos preservadores da fertilidade.

Atualmente, existe maior literacia sobre doenças de ginecologia oncológica – como o cancro do ovário, do colo do útero e da mama, que já são alvo de ampla cobertura mediática e de campanhas de sensibilização – e as mulheres estão mais informadas sobre questões ginecológicas comuns, como infeções vaginais, irregularidades menstruais e contraceção. No entanto, ainda existem lacunas e desafios sobre patologias benignas igualmente importantes – como os miomas, a endometriose, os quistos do ovário e o prolapso uterino – que permanecem frequentemente na sombra, embora sejam doenças que afetam, gravemente, a qualidade de vida das mulheres.

Em Ginecologia, a deteção precoce é essencial para permitir um tratamento mais eficaz, o que se consegue, principalmente, através de exames ginecológicos regulares, que detetam tanto as patologias oncológicas, como as patologias benignas mais importantes.

De acordo com o Dr João Cavaco Gomes, especialista em Ginecologia e Obstetrícia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, “a regularidade dos exames ginecológicos depende sempre da idade e da história pessoal e familiar da mulher. Recomenda-se que uma primeira consulta de abordagem à saúde reprodutiva tenha lugar na adolescência. Depois, uma avaliação médica anual a partir dos 20 a 25 anos, ou mais cedo se a mulher for sexualmente ativa”.

Existem patologias ginecológicas benignas que têm uma incidência mais específica por faixa etária. As infeções ginecológicas são mais frequentes em mulheres mais jovens e sexualmente ativas. A endometriose e os miomas tendem a ser diagnosticados em mulheres em idade reprodutiva. Os sintomas de endometriose podem manifestar-se mais cedo, entre os 20 e 30 anos e os miomas tendencialmente mais tarde, especialmente depois dos 40 anos. Por outro lado, condições como a atrofia vaginal e o prolapso de órgãos pélvicos são mais comuns em mulheres mais velhas e após a menopausa.

Miomectomias e histerectomias: duas situações comuns

A incidência e prevalência de miomas aumentam com a idade, no período reprodutivo. Estima-se que depois dos 40 anos grande parte das mulheres terá miomas, uma condição que pode causar sintomas como hemorragia menstrual abundante – que pode mesmo originar anemia – dor pélvica e pressão na bexiga ou intestinos. A cirurgia para miomas uterinos é indicada quando os sintomas são graves e não adequadamente controlados com medicação, ao ponto de comprometerem, significativamente, a qualidade de vida da mulher ou a sua fertilidade. O sistema robótico da Vinci constitui uma alternativa cirúrgica minimamente invasiva e revolucionária para o tratamento de doenças ginecológicas benignas.

A intervenção cirúrgica para remoção dos miomas – miomectomia – tem a vantagem de preservar o útero.  Dr João Cavaco Gomes destaca que: “esta cirurgia com o sistema robótico da Vinci apresenta benefícios por permitir maior amplitude e precisão de movimentos e melhor visualização e manobrabilidade, especialmente útil em casos de miomas grandes, múltiplos ou localizados em áreas difíceis de alcançar”.

Já a histerectomia é uma cirurgia para remoção do útero, com possibilidade de conservar os ovários, e é um tratamento definitivo. Geralmente, a complexidade da histerectomia é maior quando as mulheres apresentam condições ginecológicas mais graves, como endometriose profunda, adenomiose extensa, miomas múltiplos e grandes, cancro ginecológico ou com cirurgias prévias. O Dr Cavaco Gomes salienta que “nos últimos anos, o perfil das doentes tem vindo a alterar-se, pelo facto de as mulheres adiarem o desejo reprodutivo para idades mais tardias, o que implica procurar uma abordagem inicial mais conservadora no tratamento das várias patologias uterinas”.

Quando a opção passa por uma cirurgia minimamente invasiva, o Dr João Cavaco Gomes considera que “ o sistema robótico da Vinci pode ser recomendado para histerectomias complexas em que a precisão e a habilidade cirúrgica são essenciais (como a cirurgia oncológica e a endometriose), quando é necessário operar em espaços menos acessíveis ou de visualização mais difícil – como em úteros volumosos ou deformados por miomas- e quando a dissecção e sutura se preveem mais complexas, como, por exemplo, no caso de se ter que corrigir também o prolapso vaginal”.

As principais vantagens da cirurgia assistida com o sistema robótico da Vinci incluem uma visão tridimensional magnificada até 10 vezes, movimentos precisos e de grande amplitude, maior ergonomia para o cirurgião e, simultaneamente, menor trauma tecidual, potenciando uma recuperação mais rápida e menos complicações.

Dr João Cavaco Gomes acrescenta que “os resultados após uma histerectomia robótica geralmente incluem menor tempo de hospitalização, menos dor pós-operatória em comparação com as abordagens cirúrgicas tradicionais e um regresso mais rápido à vida normal”.